A ética dos amigos

Existe uma parte da imprensa esportiva brasileira que trabalha na linha da verdade absoluta. Para esse grupo existem dois tipos de pessoas: aqueles que são éticos e aqueles que não o são.

Para essas pessoas o mundo é dividido, bem a moda fascista, entre duas correntes, aqueles que estão de um lado (o deles) são do bem, e os que estão do outro lado (todos os outros) são do mal. E são eles próprios, que dividem e que definem em que lado do campo cada um tem que ficar.

Fora eles (e os seus) todos os outros são do mal e tudo que estes fazem merece represália, achincalhamento, lições de moral. Os deles, por outro lado, mesmo que escrevam mal e não digam nada com nada, pelo simples fato de serem do lado do bem, são ‘cool’. Merecem respeito.

Aqui abrimos um parêntese para, segundo o dicionário de filosofia (de maneira reduzida, é claro), mostrarmos o que se entende por moral e ética, pois será necessário para o bom andamento do texto: “… trata-se de dois sinônimos, derivados um do grego e o outro do latim, evocando a arte de escolher um comportamento, distinguir o bem do mal.” [grifo meu](JACQUARD, A. Filosofia para não Filósofos, p. 37.). fecha-se o parêntese.

Entretanto, essa definição não nos diz que são as pessoas que ditam as regras para que essa escolha de comportamento seja definida como certa ou errada. Me fazendo mais claro, quem é que define, no limite, a linha entre o que é ético ou não? Quem define quem é ético ou não? Neste caso, discussões sobre o certo e o errado, o bem e o mal, o justo e o injusto, enfim, sempre de maneira bipolar, definirão o que para o conjunto da sociedade é o certo e o errado, o caminho a ser seguido.

Com esse grupo da imprensa esportiva brasileira é assim que se passa. Eles sempre se arvoram o direito de estabelecer os parâmetros e apontar o dedo, como alcagüetes, como ditadores, como fascistas. E por que agem dessa maneira? Agem assim porque em algum momento de suas vidas, por algum motivo, por algum ato, no caso de jornalistas por alguma matéria, escolheram esse filão com o qual lhes aparecerá a visibilidade, credibilidade, status e reputação (assim acreditam que funciona o mundo, assim agem e assim lhes parece certo).

Mas, já que entram neste campo, jogam esse jogo, por que não podemos fazer o mesmo? Vamos ajudá-los. Vamos cobrar que se manifestem sobre comportamentos que acreditamos não serem éticos (ou morais). Vamos logo pondo o dedo na ferida e questionar sobre os amigos desse grupo.

Juca Kfuri faz parte desse grupo que se arvorou o direito de julgar e condenar o comportamento alheio. Ele é o exemplo mais acabado de como alguns jornalistas não largam o osso. Depois que publicou há anos atrás uma matéria sobre o escândalo da loteria esportiva nunca mais deixou de explorar ‘escândalos’ e julgar pessoas. Seus novos amigos e afilhados (Paulinho e Birner) seguem na esteira, vão atrás e até requentam ‘notícias’ de épocas eleitorais.

Mas, vamos ao fato que ensejou tal texto.

Um dos veículos de comunicação sempre citado pelos paladinos como exemplo de ética e retidão é o jornal O Lance.

Esse periódico da mídia esportiva brazuca, em sua batalha pela moralidade e pela ética do futebol brasileiro já fez o que – no Brasil – não é comum, lançou mão de editoriais contra os do mal e de apoio aos do bem. Timemania, R. Teixeira e Lei Pelé – os dois primeiros para serem execrados e a última para ser saudada como o supra-sumo da modernidade (seja lá o que isso queira dizer e representar), são alguns exemplos de algumas motivações editoriais do jornal. Todos eles (os editoriais) repletos e recheados de conceitos éticos/morais.

Neste ‘jogo’ reputações foram atingidas, nomes jogados na lama. Perseguições pessoais foram – e são – engendradas diuturnamente. Tudo em nome da ética (a desse grupo de pessoas, é claro).

Pois bem, a imagem a seguir serve para perguntar: É ético esse tipo de comportamento? Pode um jornal – que vive de noticiar, relatar, comentar e opinar, sobre os mais diversos clubes brasileiros – ser veículo comercial de um deles e faturar comercialmente com isso? Não seria isso, muito parecido (na visão de quem denunciou, é claro) com o caso Traffic/Palmeiras (até um recém formado causídico foi chamado a opinar dia desses em um determinado Blog)?

Será que esse jornal emitirá opiniões isentas sobre clubes de futebol que não são seus parceiros comerciais, sendo que deve receber subsídios pela venda de material de um determinado clube de… FUTEBOL?

Eu sei que o tal jornal comercializa em sua loja virtual produtos de diversos clubes, mas isso não o isenta de estar cometendo um deslize ético.

Peguemos os três grandes clubes da capital paulista como exemplo. Imaginemos que os três tem lá suas relações comerciais com o jornal (e o tem). Quem me garante que na primeira matéria que não agrade a diretoria de um dos clubes o contrato não será rompido? Quem me garante que não há nos contratos (sim, pois para relações comerciais entre duas entidades há a necessidade de se firmar um contrato) uma cláusula impedindo que o referido jornal veicule matéria negativa contra o clube?

Quem me garante que os clubes não estabeleceram essa relação comercial simplesmente para que o número de matérias positivas sobre eles sejam superiores ao das matérias negativas? Ou para que elas simplesmente deixem de existir (as matérias negativas)?

Não vou pedir aqui, como fizeram os amigos do dito jornal com o Palmeiras e a FIAT, que se mostre o contrato (ele é firmado entre duas entidades de direito privado). O que estou questionando aqui é a relação entre um jornal, que tem dentre suas obrigações investigar o que se passa no dia-a-dia de um clube de futebol (e relatar os resultados dessa investigação a seus leitores), seja positivo ou negativo o que se passe por lá, e o objeto dessa – digamos – investigação jornalística.

Dias desse vi uma propaganda – no mesmo jornal – de um relógio do SPFC. Visitando a página da loja virtual do diário vi inúmeros produtos do Palmeiras. Nem por isso – pelo Palmeiras ter lá seus produtos comercializados – acho correto.

Quer dizer que se o Palmeiras tiver alguma notícia que lhe desagrade no jornal romperá o contrato que deve existir para comercialização de seus produtos? Não creio. Acho improvável.

Quer dizer que se o jornal noticiar algo que desagrade o presidente do SCCP ele romperá o contrato para a comercialização (promoção, segundo o Jornal) do Kit…(não vou citar o nome aqui)? Não creio. Acho pouco provável.

Quer dizer que se algum dia o periódico publicar algo contrário ao presidente do SPFC, por exemplo, o contrato da propaganda do relógio será encerrado? Até não acredito, mas esse time é bem capaz disso. Leia aqui matéria sobre o empresário Wagner Ribeiro e uma ‘pequena’ pressão tricolor. Isso não é retaliação, não é – digamos – rompimento de uma relação?

Pois bem, vejam agora a imagem abaixo (copiada da edição eletrônica do diário) e tirem as suas própria conclusões. A imagem é de uma promoção entre O Lance e o SCCP.

Eu de minha parte pergunto: Cadê o CADE? Cadê a opinião do advogado? Cadê a ética?

Com a palavra os arautos da ética, da moral e dos bons costumes. Com a palavra Kfuri, Paulinho, Birner, O Lance… E muitos outros.

___________
PS. Não vou me alongar nesta discussão sobre ética, nem citar outros deslizes de veículos de comunicação. O fato de um deles, por coincidência onde o Kfuri é comentarista e tem um programa de entrevistas, ser patrocinado por um site de apostas será deixado – por hora – de lado.

Em tempo: Será coincidência que na capa do jornal, logo abaixo da chamada da promoção, haja uma chamada de matéria de toma quase a totalidade do espaço justamente sobre o time que é parceiro na promoção? Será que fatores comerciais (outros que não o da venda do jornal) não interferiram na escolha da capa?

Vejam a imagem:

A propósito de como os elefantes continuam a habitar a parte traseira de nossas orelhas, talvez por motivações que tenham a ver com o texto acima, dê uma passada lá no Blog xará (Forza Palestra, do Barneschi) e veja a diferença de tratamento dada a dois jogadores muito parecidos fora das quatro linhas.

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5 Respostas to “A ética dos amigos”

  1. Fabrício Says:

    Ademir, fiquei sabendo pelo OV que Paulo, o pequeno, estará hoje no “humorístico” Estádio 97, a partir das 18hs.http://www.observatorioverde.net/2008/02/13/por-um-punhado-de-links/#comment-15547Ótima oportunidade de fazermos algumas perguntas pra ele, arauto da VERDADE, credibilidade e da ética, como:- Pq não publica a fonte da denúncia sobre o “Futebol do Interior”?- Pq a busca pela VERDADE e pela justiça no caso MSI-SCCP foi apagada?- O que ele acha de um conselheiro do corinthians ser o presidente do orgão que devria julgar a parceira MSI-SCCP?- Pq o “pequeno” não utiliza corretor ortográfico em seus textos?Abraço,FC

  2. Ademir Says:

    Pena eu não estar em casa no horário do programa. O problema dele é justamente esse, ele confia demais no corretor ortográfico, como ele escreve muito mal, o aparelho não dá conta do recado. Mas, mande bala, faça as perguntas e zoe muito o beócio.

  3. Forza Palestra Says:

    Ademir, meu caro,Agradeço pelo link. De fato, a diferença de tratamento é gritante.Excelente o seu texto. É algo que rende um material ainda maior e detalhado.Você está de parabéns.Abraços

  4. Forza Palestra Says:

    E estou aqui ouvindo o tal de Paulinho. Que figura desprezível…

  5. Guilherme Says:

    show de post Ademir! é “estranho” essa má vontade deles com o Verdão…parabéns novamente pois seu blog ja é parada diária obrigatória apesar de nao comentar sempre.abraços!

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