Cicatrizes, batalhas e Mão

Para curar as cicatrizes os animais (os irracionais, não os chamados racionais) costumam lambê-las. Nós humanos (os racionais) não, procuramos médicos, remédios, terapeutas… Mas, para ilustrar a situação, depois da batalha em que fomos feridos ontem, uso a expressão lamber as feridas. Feridos, mas não batidos definitivamente, que isso fique claro.

Hoje, ainda com aquele sentimento de perda, que só se abate sobre nós em momentos quando somos privados do convívio e afastados definitivamente de alguém muito querido, aparecem as primeiras vozes sensatas, padecendo do mesmo sofrimento, mas com a razão falando mais alto, razão estas que falta à maioria das pessoas, principalmente àquelas envolvidas com o mundo do futebol, desgraçadamente – mundo este – que gosto e estou estudando* para se tornar, quem sabe, definitivamente parte de minha vida, que não seja só lazer, se ele já não o é.

Mais uma vez o Professor Beluzzo vem com sua lucidez dar uma aula de esportividade, de inteligência e mostrar para alguns (os vizinhos de muro e seus asseclas) como as pessoas devem se comportar, na vitória ou na derrota, na alegria ou na tristeza. Pena que muitos não entenderão. Para aqueles que ainda acham que a vida é mais valiosa que vencer de qualquer maneira aí vai o texto (ao final o link):

Filhos da Mão

Luiz Gonzaga Belluzzo

Não é a primeira vez que invocam a “mão de Deus” para explicar o desfecho de uma partida de futebol. Atribuir a Deus o uso das mãos para influir no resultado das ações humanas é temeridade que beira à blasfêmia. Veja o caro leitor o que acontece, nesse momento, com a mão- invisível. Adam Smith a imaginou à semelhança da Providência, encarregada de guiar o egoísmo dos homens na direção do melhor resultado possível para a sociedade.

A crise dos mercados financeiros parece indicar que desgraçadamente a Providência Divina não se imiscui na reprodução da vida material. Tudo indica que tampouco pretenda se intrometer no jogo da bola, esporte que os deuses dos estádios estão autorizados a praticar com os pés e com a cabeça.

Em 1971, Armando Marques, na “mão grande” ou na “mão boba”, apitou “mão-na-bola” quando Leivinha cabeceou a dita cuja para as redes do goleiro Sérgio. Na ocasião, o governador Laudo Natel, sentado no banco de reservas do São Paulo, comemorou discretamente, como cabe aos cavalheiros de Piratininga.

Na partida de ontem Adriano impulsionou com a mão a bola que sua cabeça não iria alcançar. Nas explicações de intervalo, o assim chamado Imperador, na esteira de Maradona, usou as reservas de cinismo que a sociedade contemporânea coloca a disposição dos seus súditos: o negócio é vencer ou ganhar a qualquer custo.

Também no intervalo entram em cena os comediantes, pródigos em exegeses que ridicularizam o ridículo, sobretudo quando se trata de explicar o óbvio. Falo do árbitro Paulo “não sei das quantas” e do inefável coronel Marinho. Aborrecido com o gol de mão, passei a me divertir à grande com as explicações dos dois “especialistas” em arbitragem.

Em certas derrotas, ao invés da amargura, é preciso preservar o humor. Ontem não faltou matéria-prima. Fossem os bons tempos da Atlântida, a dupla de pândegos seria convidada para contracenar com Oscarito e Grande Otelo, com chances de suplantar os dois atores nas impagáveis cenas de non-sense. Pensei melhor: contemporâneos, estariam, na verdade, aptos a pedir uma vaga nos Trapalhões. Paulo “não sei das quantas” é um PhD em trapalhadas e o coronel não faria feio como roteirista.

Não vou, aqui, execrar a pobre bandeirinha, figura patética. Ouvi insinuações do tipo “é isso que dá escalar mulher num jogo decisivo”. Bobagem machista. No jogo do returno do brasileiro de 2007, na partida contra o tricolor, o bandeira anulou o gol do Palmeiras. Até prova em contrário, tratava-se de elemento do sexo masculino, nem por isso menos inabilitado para a função.

A cidadã que ontem tentava auxiliar sua senhoria exagerou: marcou impedimento em escanteio. E mais, em rebote de Rogério Ceni, a já transtornada senhora assinalou impedimento de Diego Souza, em posição legal na hora do chute de Valdívia. Ninguém reclamou nem falou do lance. Assim como outras críticas, a crítica de arbitragem agoniza no país do futebol.

Diante das trapalhadas do chamado trio de arbitragem, sucumbi ao dúbio sentimento que a perversidade da alma humana reserva para as relações com néscios ou incapazes de todo o gênero, o conluio entre o menosprezo e a piedade. No caso, aplica-se a conhecida história do sujeito que foi mordido por um cachorro. De nada adianta brigar com o cão mordedor. Qualquer pessoa sensata deve interpelar o dono do bicho.

É verdade que, durante a Revolução Francesa, um tribunal de citoyens condenou um cachorro à morte por cumplicidade com a contra-revolução. Admiráveis e incontornáveis antepassados, os gregos julgavam e condenavam animais e seres inanimados, como pedras e similares, acusados de causar danos aos humanos. Para alívio de muitos, esses tempos passaram.

Mais do que as decisões incompetentes de Paulo “não sei das quantas” e de sua pobre auxiliar, as explicações do Diretor de Árbitros causaram danos à Federação Paulista de Futebol. O cara marcou o gol com a mão esticada, aumentando o volume do corpo.

Isso não é permitido pela regra. Intencionalidade, no caso, é irrelevante. Coronel, levante o braço e abane as mãos num gesto de adeus. Demita-se. Caia fora.

Fonte: Diálogos – Carta Capital.

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2 Respostas to “Cicatrizes, batalhas e Mão”

  1. Anonymous Says:

    É difícil assistir inerte a tudo isso.Ter de ler nos blogs esportivos comentários de são-paulinhos dizendo – ah, mas dos três penaltis em Ribeirão Preto vocês não falam nada – como se tivesse sido assinalados equivocadamente.Vai ser uma longa semana, uma espera dolorida até o próximo domingo, e saíremos vencedores.Obrigado por ser palmeirense Sr. Beluzzo.Sangue Verde

  2. Forza Palestra Says:

    O texto é absolutamente genial. Tanto quanto o autor.E a sua introdução é pertinente, porque muito do que eu invejo (no bom sentido) no prof. Belluzzo é a capacidade de transmitir todo esse sentimento e passar certas verdades sem a necessidade de frases agressivas.Talvez nem seja a intenção, mas ele transparece uma superioridade de pensamento mesmo na hora da adversidade.

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