Torcedores do Palmeiras: essas pessoas perigosas, desqualificadas e indesejáveis

Ainda não digeri a justificativa do ‘nosso’ quarto vice-presidente, Senhor Eben Gualtieri, para o aumento dos preços dos ingressos para os jogos do Palmeiras. Nem o fato da diretoria ter prometido a uma das organizadas (TUP) que os preços voltarão ao patamar do campeonato paulista, R$ 30,00 a arquibancada, me faz sossegar, pois não é só esse o problema. Não que uma volta aos preços antigos não seja importante, o é, mas o que ‘está pegando’ é ainda a maldita frase de que isso é uma forma de selecionar o público que freqüenta o estádio. Ainda cobro da diretoria um posicionamento sobre os fatos acontecidos e sobre o que disse o Senhor Gualtieri.

Para além dos fatos aqui já escritos, que dão conta de que o Palmeiras foi fundado por imigrantes, portanto um time de colônia, de gente que foi (e ainda é) discriminada por sua origem, há o fato de ser essa ‘qualificação da torcida’ um instrumento de seleção social, instrumento esse de classificação, estigmatização e separação.

Isso, em última análise, é coisa de nazista e de fascista; coisa de gente que vê a pobreza como problema, mas que para debelá-la sugere como remédio a solução final. Assim, primeiro vem a classificação, depois a estigmatização, para logo após aparecer a necessidade da segregação e, finalmente, o extermínio do diferente, do ser ‘indesejado’. É a diferença sendo levada ao extremo, é a solução final.

O senhor Gualtieri pode dizer agora que não foi bem isso que quis dizer, o mesmo digo de JK. Mas está dito, deveriam ter pensado nas conseqüências de suas palavras, pois elas podem levar a ações que ensejem arrependimentos posteriores (lembrem-se ou conheçam Carl Schmitt).

Tenho um colega de pós-graduação, vindo do longínquo e ensolarado Piauí, que tem como tema de estudo a violência, suas conseqüências, a percepção sobre ela e as soluções que são apresentadas para se resolver o problema. Ele costuma me mandar textos, escritos por ele, sobre a temática. Na última semana, por coincidência, me mandou este texto – o reproduzo a seguir – que veio bastante a calhar. É um texto acadêmico, alguns podem achá-lo chato, enfadonho. Mas vale a pena lê-lo, tem tudo a ver.

Eis o texto:

PESSOAS PERIGOSAS

Por: Arnaldo Eugênio, Sociólogo – Doutorando PUC/SP – Bolsista CNPq

A expressão “pessoas perigosas” – um dos desdobramentos do estigma de lugares violentos -, com freqüência tem sido utilizado para designar os indesejados e inúteis ao processo lógico do moderno capitalismo. Isto é, a penalização da pobreza ou do subproletariado de comportamento “incivilizado” que suja e ameaça a decência e a falsa moral da cidade.

Um estigma com base na doutrina da “tolerância zero” de Charles Murray (Losing Groud: American Social Policy, 1950-1980), “um politólogo ocioso de reputação medíocre e guru da administração Ronald Reagan em matéria de welfare”, com muitos admiradores no Brasil entre os “especialistas em segurança” reacionários e conservadores. Cujo “fiscal-vedete de Nova York, Rudolph Giuliani, extraiu as diretrizes da política policial e judiciária que passou às forças da ordem um cheque em branco para perseguir agressivamente a pequena delinqüência e reprimir os mendigos e os sem-teto nos bairros deserdados” (Wacquant, 2001).

As pessoas estigmatizadas como perigosas são “arbitrariamente excluídas da lista oficial das que são consideradas adequadas e admissíveis” (Bauman, 2005), compondo uma “subclasse” destituída de quaisquer aspectos de reconhecimento de humanidade, principalmente o direito a uma identidade – “a identificação é também um fator poderoso na estratificação, uma de suas dimensões mais divisivas e fortemente diferenciadoras” (Bauman, 2005).

Na atual teatralidade do cotidiano da “sociedade líquido-moderna” (Bauman, 2005), a subclasse das pessoas perigosas constitui um lixo humano de rejeitados pela lógica da economia capitalista por não serem mais portadores de qualquer potencial humano de trabalho para a exploração e expropriação – no dizeres de Karl Marx -, restando-lhes as migalhas da “subcidadania” (Souza, 2003) construída pelo processo de exclusão que a separa “do espaço em que os outros, as pessoas ‘normais’, ‘perfeitas’, vivem e se movimentam” (Bauman, 2005). São as “maiorias que pouco podem influir nas decisões governamentais”, na medida em “o processo (de globalização) tem contribuído para trazer efeitos sociais ainda mais perversos, precarizando a situação dos ‘incluídos’ e aumentando o número dos ‘excluídos’ (Wanderley, 2007) – no caso, a subclasse de inúteis.

O estigma de pessoas perigosas, portanto, está sendo usado em referência a um atributo profundamente depreciativo no intuito de negar e anular qualquer acessibilidade de direito ou reconhecimento a essa massa de consumidores incapazes. È um estigma que corresponde “as culpas de caráter individual, percebidas como vontade fraca, paixões tirânicas ou não naturais, crenças falsas e rígidas, desonestidade, sendo essas inferidas a partir de relatos conhecidos de, p.ex., distúrbio mental, prisão, vício, alcoolismo, homossexualismo, desemprego, tentativas de suicídio e comportamento político radical” (Golffman, 1988).

Sob tal condição, “qualquer outra identidade que (…) possa ambicionar ou lutar para obter lhe é negada a priori. O significado da ‘identidade da subclasse’ é a ausência de identidade, a abolição ou negação da individualidade, do ‘rosto’ – esse objeto do dever ético e da preocupação moral. (…) é excluído do espaço social em que as identidades são buscadas, escolhidas, construídas, avaliadas, confirmadas ou refutadas” (Bauman, 2005). O estigma de pessoas perigosas tem por objetivo confortar o medo dos estratos médio e alto.

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Ao Arnaldo meus agradecimentos por me permitir publicá-lo, pois este texto fará parte de seu trabalho de doutorado, portanto, ainda é inédito.

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2 Respostas to “Torcedores do Palmeiras: essas pessoas perigosas, desqualificadas e indesejáveis”

  1. Coruja Says:

    Muito bom, companheiro. E também acho que, acima do valor abusivo do ingresso, mais grave foi a justificativa apresentada pelo Führer. Quanto ao preço, R$30,00 já representa um abuso!P.S.: Não falei que essa gentinha arrotava peru? Cadê a “Zelite”? Tá guardando um troquinho pra pegar um franguinho no Boqueirão nesse feriado?

  2. Carlos Pingüim Says:

    Eu tenho muito medo de pessoas como esse Ebem “Gepeto” Gualtieri.A majoração do preço do ingresso e a sua justificativa para tanto, aviltam todo o bom trabalho que vem sendo feito pela Diretoria e por uma série de outros palmeirenses abnegados para reconduzir o Palmeiras ao seu papel de protagonista do futebol nacional.Além de cuspir na nossa história, no nosso passado de muito trabalho e dignidade.Afinal, que é que esse cara está fazendo na vice-presidência do Palmeiras? Isso é o chamado “fogo amigo”, ele joga contra!Será que o estatuto não tem nada que permita realizar o impeachment desse sujeito?Abraço a todos

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