Vida longa ao Paulistão

A nova onda do jornalismo de oposição é malhar os campeonatos estaduais. Isso não é novo, mas de uns tempos para cá – feito criança que ao não gostar de alguma coisa a desdenha – resolveram partir para desqualificar os certames estaduais utilizando-se de termos depreciativos. Vitor Birner, diz o seguinte sobre o campeonato paulista: “… poderia dar vários argumentos para o diminutivo.” (…) Mas, “Não é um tratamento carinhoso…”.

Birner é parceiro de vários outros jornalistas que segundo Régis Bonvicino – em seu artigo “O futebol é canalha” – faz jornalismo de oposição. No artigo Bonvicino utiliza o termo para designar parte da imprensa esportiva brasileira, em especial aquela que diuturnamente bate em ‘gregos e troianos’ para tornar vencedoras suas teses, e mesmo que não consigam nada de concreto é useira e vezeira nesse esporte.

Paulistinha, Gauchinho, Mineirinho, Baianinho… Assim é a maneira que encontraram para tratar os estaduais. Devem pensar, como as crianças que já citei: já que não gosto deles, pois não são descolados, não são bacanas, não são – sei lá, europeus – tratemos todos no diminutivo, assim mesmo, para diminuir a importância deles.

Eu poderia simplesmente dizer – já que o tratamento vem do próprio Birner – que é para desqualificar as equipes que dão importância ao torneio, já que o time pelo qual ele torce diz que não dá importância ao torneio paulista (não nesse momento, pois há alguns anos, quando estavam na estiagem de títulos, contrataram Leão a peso de ouro para levantar o caneco e comemoraram muito ‘o feito’), entretanto isso seria reduzir a análise a apenas um fator. Ele deve ser levado em conta, mas não é o único.

O amigo André Falavigna, do Blog do Meu Saco, diz que esse tipo de militância (a do Birner e de outros, contra os estaduais) se encaixa naquelas de tipo deslumbradas, ou seja, os argumentos que usam só servem para aqueles que não enxergam nada de bom por aqui, as coisas ‘bacanas e descoladas’ são aquelas vindas de fora; da Europa, por exemplo. Lá, dizem, não existem esses campeonatos deficitários, ultrapassados; então nossos estaduais não servem. Confesso que gosto do argumento do André.

Basta acompanhar como foi a batalha dos jornalistas ‘do bem e de oposição’ por um campeonato de pontos corridos, inclusive desqualificando aqueles que por gosto pessoal eram contrários a tal fórmula. Os tais jornalistas brigam e brigaram pela adaptação de nosso calendário (o nosso é ruim, o deles é o máximo) ao calendário europeu (até usam o argumento de que diminuiria o êxodo de atletas, como se uma coisa fosse resultado da outra). Para eles o fim da lei do passe seria a redenção, não teríamos mais escravos, essa ‘gente morena’ mostraria o seu valor… Tudo moderno, tudo uma cópia automática, nos lembrando da famosa frase “se é bom para os EUA é bom para o Brasil”, agora transferindo a projeção para o continente europeu. Todas brigas para nos transformar em uma pequena Europa

Do ponto de vista do torcedor, coisa que eles dizem não ser, mas representar, o fim dos campeonatos estaduais seria a morte rápida de nossas rivalidades. Nós, aqueles que frequentamos arquibancadas, gostamos mesmo é de uma rivalidade regional, não que as nacionais não sejam importantes, mas gostamos é de um “Dérbi”, de um “Choque Rei”… Se ganhamos, mesmo quando desdenhamos o estaduais – feito ‘papagaios de pirata’, ‘deslumbrados’, ou novamente como crianças emburradas – comemoramos, e muito. Afinal, ganhar de quem está ao lado (os grandes rivais estão – na maioria – dentro de nossos estados) é sempre mais gostoso.

De minha parte, como torcedor, aprendi a gostar de futebol, aprendi o que é uma rivalidade, aprendi o que é torcer, sofrer e/ou comemorar com os campeonatos estaduais. Aliás, quando morava no interior a minha única chance de ver o meu time do coração ao vivo (não na TV, mas em um estádio de futebol – local onde o verdadeiro torcedor deve extravasar suas emoções) era quando o Palmeiras visitava o XV de Jaú. Uma única vez a cada ano, mas esperava por isso com a ansiedade de um jovem apaixonado. O confronto não era no brasileiro, não era no Rio-São Paulo, não era na Copa do Brasil (que nem existia), era no campeonato paulista.

Então, os defensores dos torcedores, esses do jornalismo de oposição, não representam os torcedores, apenas tentam adaptar sua ‘ideologia’ àquilo que consideram ‘moderno’, ‘bacana’… Europeu.

Um dos argumentos que usam para desdenhar e tentar aniquilar com os campeonatos estaduais é o da falta de interesse dos torcedores por esses torneios. Veja o que Birner escreve sobre isso, sobre a falta de interesse dos torcedores do interior no jogo de abertura do Paulistão (Palmeiras x Santo André): “Recomeço de competição, torcedor sedento por futebol por causa das férias, a torcida palmeirense é bem grande na cidade, em suma, deveria ser bem atraente. Vinte e seis mil seiscentos e trinta e dois ingressos foram colocados a venda e 12.714 saíram das bilheterias…”

Ou seja, um dos argumentos para que os estaduais sejam banidos do malfadado calendário do futebol brasileiro é a falta de interesse dos torcedores para com o certame em questão. Ora, mas em tempo de internet, alguns argumentos não resistem a algumas pesquisas no ‘bom e não tão velho’ Google. Basta procurar na página da CBF as súmulas e resumos do último campeonato brasileiro. O SPFC, time para qual o mesmo jornalista torce, estreou no campeonato brasileiro de 2008, do qual foi o campeão, no dia 15/05. Podemos dizer – usando as palavras do jornalista – que o torcedor estava sedento por futebol, afinal esse é o campeonato nacional de pontos corridos, é moderno, nos moldes europeus… Mas, o que houve? O estádio estava cheio? Não, havia – segundo o boletim financeiro disponível na página da CBF – 7.923 presentes no estádio do clube que, repito, se sagraria campeão do certame.

No jogo seguinte em seus domínios, o time do Morumbi teve um público de 5.027 pagantes, no outro pouco mais de 7.000 presentes. A coisa seguiu dessa forma até poucas rodadas do final, quando o time do Jardim Leonor mostrou que poderia ser campeão, só a partir desse momento o público da equipe passou a crescer.

Bem, isso não acontece com todas as equipes, existem torcidas que acompanham seu time esteja ele bem ou mal no campeonato, seja início, meio ou fim do mesmo. Não é o caso do time do jornalista, mas seguindo a lógica de pensamento dele – de que o que vale é o interesse do torcedor para balizar se um campeonato é INHO ou ÃO – o campeonato brasileiro também é INHO, deve desaparecer, pois pelo menos para algumas torcidas ele não desperta interesse.

O Ipatinga levou uma média de 3.602 torcedores por jogo em seu estádio, a Portuguesa 5.088, o Goiás 8.558, o 9.003, o Santos 9.803. Dos 20 times da primeira divisão do campeonato brasileiro somente cinco (05) conseguiram média de público em seus estádios acima de 20.000 pessoas. Ou seja, o argumento de que campeonatos regionais tem pouco público, por isso, deve ser extinto, é ruim, pois a média de público do campeonato nacional também não é boa, e alguns clubes somente aumentaram sua média devido a bons públicos na reta final do campeonato.

Do ponto vista jornalístico, então, é que a coisa fica feia, pois suscita dúvidas quanto à lisura daqueles que defendem tal prática.

Me explico. Um dos mais ferrenhos defensores do fim dos estaduais é o ‘jornalista’ Juca Kfouri, também do grupo de jornalista ‘do bem e de oposição’. O tal ‘jornalista’ é funcionário de um grupo de comunicação multinacional, que detém os direitos de transmissão de vários campeonatos europeus, canal esse que aos finais de semana transmite a carga de aproximadamente 10 jogos (para ser conservador nos números) e que recebe a concorrência direta de canais nacionais que transmitem os campeonatos regionais.

Não tenho os números da audiência, mas tenho quase certeza que os torcedores preferem assistir a uma partida de uma campeonato regional a um modorrento Manchester (não sei qual deles) e West Ham, por exemplo, por mais que as chamadas do canal multinacional falem em emoção, melhor campeonato daqui, melhores jogadores dali.

Me lembro da época em que a falta de público nos estádios era debitada na conta do excesso de jogos transmitidos pelos canais de televisão. Esse argumento não é mais usado, pois senão teriam eles – os jornalistas – que admitir que estão acabando com o futebol nacional com essa overdose de jogos (ruins) que transmitem todo final de semana. O argumento agora é o dos campeonatos estaduais que não atraem público, pois o campeonato paulista, para ficar no exemplo de casa, tem uma overdose de equipes.

Eu não entendo assim e para mim os argumentos que apresentam são ruins, fruto de uma adesão automática às fórmulas externas e por interesses comerciais de jornalistas que trabalham em empresas multinacionais.

O fato de um estado como São Paulo ser maior que boa parte dos países que tem seus campeonatos nacionais transmitidos por aqui nem é discutido, o fato de termos só em São Paulo mais times que em muitos desses países é ignorado. Quanto ao torcedor das equipes do interior, ou mesmo das equipes da capital que moram no interior e tem a única chance de ver no estádio seu time do coração durante o campeonato estadual, esses não são representados nestas fórmulas mirabolantes que apresentam esses ‘jornalistas’.

As saídas que propões são a morte das equipes pequenas, que já vem morrendo com o fim da lei do passe que foi defendida com unhas e dentes por esse mesmo grupo, e com a falta de novos torcedores, pois a meninada está sendo incentivada por eles a torcer para equipes como o Chelsea, por exemplo, mesmo que – como já disse – é sofrível ver um Manchester x West Ham, ou um Aurora/BOL x Boyacá Chicó/COL, direto de Cochabamba.

Não sei onde chegaremos com gente assim, nem mesmo se há ressonância – deve haver – naquilo que eles dizem e pregam, só sei que para mim os estaduais devem sobreviver; como devem sobreviver as rivalidades locais, que são apimentadas – todo ano – com os campeonatos estaduais.

Para mim o campeonato paulista é PAULISTÃO sim. Desqualificá-lo é que e INHO: mesquinho, pequenininho…

__________________
sem revisão.

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9 Respostas to “Vida longa ao Paulistão”

  1. Luis Says:

    Perfeito…Sem mais…

  2. Vitor MV Says:

    Cara faz tempo, que leio seus posts e admiro muito apesar de nunca ter comentado, mas hj tenho que comentar pois você foi perfeito, e eu penso igual a você, o fim do “paulistinha”(como bambis gostam de chamar) seria o fim do futebol do interior, responsável por revelar milhares de jogadores, e pra mim o paulista é PAULISTÃO!Abraços, e Parabéns pelo blog.

  3. cruzdesavoia Says:

    Faltou uma linha em branco para assinarmos o texto embaixo. Valeu, Carca: duca!

  4. Gabriel Foots Says:

    Bravo, Ademir! Bravo!!Perfeito, meu caro!A mídia está infestada de sãopaulinos que tentam diminuir o estadual só pq têm menos títulos do que seus rivais. Ao meu ver, o sr. Kfouri é, na verdade, bambi. Gambá é lunático, cria ficções que só ele acredita, mas não fala tanta groselha como um bambi; e o Juca é só groselha.Parabéns pelo blog.Avanti Palestra!

  5. Guto Says:

    Ademir, execelente post!Parabéns!Abraços

  6. Ademir Castellari Says:

    Valeu pelos comentários amigos. Espero que sempre estejam por aqui, concordando ou discordando de meus comentários, mas sempre por aqui; afinal, o blog é feito para vocês, e espero que – em algum momento – por todos vocês. Abraços

  7. vitorbirner Says:

    Fala, Ademir!!! Não é mesquinho, mas realista. O campeonato atravanca o trabalho dos grandes e a vida dos pequenos. O campeonato estadual precisa ser forte pela rivalidade entre os times menores, pois só crescendo gradativamente ficarão grandes. Mas a FPF precisa investir uma grana e perderá a ligação com Corionthians, Palmeiras, São paulo e Santos,sua força política e financeira no cenário nacional. Por isso, confirmo, sou de oposição apos políticos e em defesa do futebol. Os calendários precisam ser intercalados para que os times sempre tenham a chance de chegarem num patamar acima. Pergunte aos torcedores quais são os critérios de classificação para a quarta divisão, por exemplo. A maioria não saberá. O calendário necessita ser claro, direto, objetivo, para permitir sonhos, objetivos e estimular a rivalidade. Por isso, repito, sou de opositor da ordem atual. Faço jogo do torcedor e não do cartola, nem que o verdadeiro amante do futebol não perceba. Acho que o paulistinha precisa acabar para voltar o campeonato paulista, que precisa ter outro conceito, com base nos times do interior. Essas equipes precisam do apoio das cidades e só com rivalidade viva no rico interior isso acontecerá. Hoje Barcelona, Real Madrid, Manchester United e outros europeus roubam os futuros torcedores dos times menores e até dos grandes. Por falar nos maiores do Estado, dou uma sugestão que sempre repito. Ao invés de perderem tempo com o enorme e chato acúmulo de partidas que prejudicam o início da temporada, seria legal fazerem torneios como os de verão argentino, com 5 ou 6 equipes, as grandes são imprescindíveis, em cidades do interior, para que as pessoas de lá possam viver a emoção da relação próxima com seus times. Esses jogos não podem acontecer na capital, onde é bom que as torcidas fiquem esperando, babando para acompanhar os jogos. Tudo isso e outras coisas que não tenho como descrever em textos curtos aumentaria as rendas, a qualidade do futebol das equipes que teriam mais tempo de preparação, a democratização do esporte, a proximidade com os torcedores, a força dos grandes, dos pequenos… O prejuízo ficaria para os políticos interessados na atual forma. Os conservadores da bola são incapazes de entender que o paulistão nos anos 90 virou paulista e no novo milênio paulistinha. Os torcedores decidiram isso. Não foram os jornalistas. A Globo que exerce grande influência no povo, nunca deixou de apoiar o Estadual. Ele perdeu força pela reação das pessoas. Sobre meus gostos pessoais, sou do tipo que vê jogos da A3 na Rede Vida, vivem pegando no meu pé lá na rádio, mas meus gostos pessoais, na avaliação, são irrelevantes. Forte abraço,Vitor Birner

  8. Ademir Castellari Says:

    Fala Vitor, beleza. Primeiro, foi muito legal te conhecer pessoalmente e podermos debater, mesmo que de forma rápida, o que pensamos sobre futebol. Em segundo lugar, valeu pela leitura, pelas dicas, e pela paciência em comentar. Finalmente, por falta de tempo, viajo daqui a menos de uma hora, não me aprofundarei sobre os seus comentários – continuando o debate – neste momento, promeo que o farei na volta. Um abraço. Ademir

  9. vitorbirner Says:

    Ademir, eu adorei a conversa! Não me agradeça pela paciência. Não usei nenhuma. A conversa de ontem, os amigos, isso faz a vida valer a pena e a ser melhor. Eu que agradeço pelos bons momentos. Quando voltar, me avise. Sábado estarei lá em busca do 14 título. Que o Vai Vai esteja iluminado!!! Estou ansioso, tenso. Haja adrenalina!!!! Grande abraço!

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