[OFF]Onde será impresso o obituário?

Via: Último Segundo – IG.

Caio Blinder, de Nova York

A SESSÃO NOSTALGIA NO CINEMA E O FUTURO DA VELHA IMPRENSA

NOVA YORK- O filme “State of Play” (que no Brasil será “Intrigas de Estado”) é uma sessão-nostalgia para jornalistas para lá da meia-idade, como eu. Russell Crowe é um jornalista investigativo da velha escola. Desalinhado, ele está mais para Dustin Hoffman (Carl Bernstein) do que para Robert Redford (Bob Woodward), em “Todos os Homens do Presidente”. Crowe (Cal McCaffrey) tem como comparsa, em suas investigações sobre crime e corrupção em Washington, a blogueira Della Frye (Rachel McAdams).

A sessão-nostalgia no filme tem o ápice justamente quando os rolam os créditos e vemos o processo de impressão e distribuição do papel-jornal. A cena é de doer, pois não dá para visualizar um happy-end para os jornais impressos. Aqui nos EUA é uma sucessão de más noticias, com jornais fechando, ameaçando fechar ou em regime de concordata. Como disse acidamente o comediante Stephen Colbert: “Onde será impresso o obituário da indústria de jornais”?

Na via crucis, profissionais da “velha imprensa” podem consultar o mapa sobre como jornais podem conviver com a nova mídia que foi desenhado há mais de 50 anos por Bernard (Barney) Kilgore, um lendário editor do “Wall Street Journal”, hoje propriedade do império de Rupert Murdoch. O desenho está na recém-publicada biografia escrita por Richard Tofel, “Restless Genius” (Gënio Incansável). Na hipérbole do subtítulo do livro, Kilgore foi participante da invenção do jornalismo moderno, isto é, nos anos 40.

Kilgore herdara um “business model” atropelado pela tecnologia. O “Wall Street Journal” fora fundado em 1889 para oferecer notícias do mercado e preços das ações a investidores individuais. Mas 50 anos mais tarde, a publicação perdera metade de sua circulação pois sua informação básica estava amplamente disseminada. Kilgore percebeu que a “nova mídia” de então, o rádio, dava informações sobre o mercado em tempo real. Hoje parece óbvio, mas Kilgore sacou que seu jornal não podia simplesmente anunciar as notícias de ontem, mas deveria sinalizar o que estava à frente e analisar os acontecimentos.

No ”day after” ao ataque japonês em Pearl Harbor (7 de dezembro de 1941), os outros jornais relataram os fatos amplamente conhecidos naquele domingo, graças ao rádio. A primeira página do “Wall Street Journal” em 8 de dezembro foi um marco do jornalismo. O texto começou com a frase “Guerra com o Japão significa revolução industrial nos EUA”. O artigo delineou as implicações do conflito para a economia e os mercados financeiros. Era o material que o leitor do “Wall Street Journal” mais precisava naquele momento.

Nostalgicamente, eu temo que a piada de Stephen Colbert seja seríssima, mas é bom ver que mesmo durante o Pearl Harbor que aflige a mídia impressa, nem todas as publicações estejam afundando. A obrigatória revista semanal “The Economist”, com seu foco em interpretação sofisticada, está aumentando a circulação e o próprio “Wall Street Journal” aposta no sucesso de sua fórmula de leitores pagando por acesso à sua edição online.

Vamos ver. No filme “State of Play”, o velho (Russell Crowe) e a nova (Rachel McAdams) na imprensa se clicam na bem-sucedida investigação jornalística. Não sabemos se serão felizes para sempre.

A revolução está aí; ela não é televisionada, tampouco será impressa.

E tem gente que não enxerga isso!

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