Editorial

Aqui se resiste à higienização

Não existe coisa mais desagradável, para dizer o mínimo, do que a discussão que se trava quando o tema é aumento dos preços dos ingressos. Alguns são contra, outros a favor; ninguém se entende.

Desde o dia em que foi divulgado o aumento (25%) nos preços (R$ 50,00) dos ingressos para o jogo contra o Sport – sim, contra o Sport, pois se avançarmos não há dúvidas que outros aumentos virão – esse blogue se posicionou contra, continua a sê-lo, e continuará sendo em toda e qualquer oportunidade que sentir que isso é um processo que leva, inexoravelmente, à exclusão/expulsão dos torcedores dos estádios.

Esse blogue sempre se pautou (editorialmente) pela defesa intransigente do Palmeiras e de seus torcedores. Foi um dos primeiros que aderiram à candidatura vitoriosa do professor Belluzzo à presidência do Palmeiras, pois entendeu que ele era – e ainda é – a esperança em termos um Palmeiras forte e vencedor. Entretanto, quando essa diretoria, ou qualquer outra, estiver em descompasso com o maior patrimônio que o Palmeiras conta – SUA TORCIDA – não se furtará em criticar seja lá quem for, inclusive, criticando aquele que ajudou, por opiniões e ações, a colocar na presidência do clube.

Isso quer dizer o seguinte: continuaremos a defender o Palmeiras e seus torcedores aqui nestas mal traçadas linhas doa a quem doer, ofenda a quem ofender, pois não nos furtaremos (o blogue e esse blogueiro) em emitir opiniões mesmo que contrárias à diretoria do Palmeiras, afinal – caso capitule em algum momento – esse blogue deixa de cumprir os seus objetivos e não tem mais razão de existir.

Dito isso, e acompanhando as calorosas discussões que se travam sobre o tema nos blogues afora, entre Palmeirenses e sobre o tema em pauta, emitiremos algumas opiniões para tentar apaziguar corações, mas principalmente, tentando aclarar mentes.

Um dos primeiros argumentos em favor do aumento nos preços dos ingressos que já li por aí é que ele se faz necessários para ‘afastar as torcidas organizadas dos estádios’.

Esse argumento vem reforçar aquela tese discriminatória, nazista, higienista e pouco inteligente de uma parte da mídia esportiva brasileira, notadamente aquela que se posiciona sempre do ‘lado do bem’, a chamada mídia de oposição, sempre com idéias iluminadas (e iluministas), mas que no fundo se pauta por um deslumbramento – sem argumentos factíveis – com tudo que vem de fora; são aqueles que estão com os pés fincados em terras tupiniquins, mas seus corações sempre estão – e estarão – na Europa.

Se posicionar a favor desse argumento é não enxergar um palmo diante do próprio nariz, pois fosse verdade tudo que se diz dos torcedores organizados e essa tese já cairia por terra. Pois, senão vejamos: Alguns dos impropérios que se vomitam contra os organizados dão conta de que estes (os organizados) são torcedores profissionais, são ‘bancados’ pelos clubes, recebem ingressos gratuitamente etc. Ora, se isso for verdade como é que o aumento dos ingressos poderia afastar dos estádios os ‘bandidos, malfeitores, baderneiros etc. etc. etc.’? Então, esse argumento não serve, pois ou bem eles (os organizados) são tudo isso que os seus detratores dizem, e o aumento dos ingressos não os atingirá, ou o aumento dos ingressos não serve para afastar esse segmento de torcedores das arquibancadas. Simples assim, é só somar dois com dois, usar mais que dois dos neurônios que habitam nossos cérebros, e não ficarmos repetindo as besteiras que se ouvem seguidamente – todo domingo ou segunda-feira – nos programas de mesa-redonda.

O que há é a possibilidade de – vejam só – o aumento fazer parte de um processo muito maior, de um processo de elitização que tenta afastar aqueles que há tempos acompanham o futebol nos estádios; sejam eles organizados ou não. Não querer enxergar isso é se negar em lutar para que o futebol continue a ser patrimônio das camadas mais populares. Aliás, é só ler um livro qualquer sobre a história do futebol brasileiro e ver que isso sempre foi assim, que houve muita resistência das camadas mais abastadas em assimilar o fato de que ‘o povo’ praticava e se identificava com esse jogo; jogo que virou esporte e que teima em nos fugir novamente, e tentam tranformar apenas em negócio.

Outro argumento que se usa é a defesa de que para termos ‘bons times’ precisamos de dinheiro, para se ter dinheiro há de se aumentar receita, logo… Ora, aqui há dois problemas. Um de ordem econômica, outro de ordem prática.

O de ordem econômica, apesar de eu não ser do meio, ao contrário do presidente do clube e de muitos outros Palmeirenses, é que sempre nesse país quem paga a conta é o povo. Já na época da ditadura militar – de triste memória – um ministro da economia sempre disse que havia a necessidade de se fazer o bolo crescer pra depois reparti-lo, ou seja, o povo precisava se esforçar, apertar o cinto, arcar com o processo de crescimento, para só depois se beneficiar disso. Entretanto, para esse ministro, a mesma lógica não era usada para aqueles que não eram ‘do povo’. O que quero dizer com isso? Simples. É que, também no Palmeiras usa-se o argumento daquilo que almejamos de imediato – ou mesmo a médio e longo prazo – como argumento para nos achacar e cobrar ‘esforços’ no sentido de que somos co-participes do ônus para atingir o bônus.

O problema nesse argumento é que sempre, como se vê, a saída é a do ‘apertar os cintos’ – no caso aumentar os preços dos ingressos. Nunca outras saídas são buscadas. Não me perguntem quais, pois não sou economista, não sou da direção do clube, sou apenas um torcedor apaixonado que não quer ser alijado, afastado, excluído etc. do convívio (ESTÁDIO) com o meu clube do coração. Agora, se parcerias – por exemplo – são buscadas para contratação de jogadores (aliás, é nosso próximo tema), se grandes empresas – como a Nestlé – num passado muito recente se prontificaram a patrocinar ‘jogos do bem’, se há a possibilidade de aumentar receitas de outras formas, por que é que sempre – repito, sempre – se buscam as saídas mais fáceis (para aqueles que não querem pensar) e que, invariavelmente, são as mais dolorosas aos TORCEDORES, repito, O MAIOR PATRIMÔNIO DO CLUBE?

Ainda no campo dos ‘bons times’, o problema de ordem prática, enseja a pergunta que cabe fazer – e olha que sempre achei que não iria utilizá-la, mas faz-se necessário, pois não sou eu quem a está usando, mas os defensores do aumento dos ingressos – é: mas, de que time estamos falando? Explico-me.

Se o aumento dos ingressos é para mantermos ‘bons times’, contratarmos ‘bons jogadores’, sermos um ‘time competitivo’, onde é que está o tal bom time? Capixaba, Maurício Ramos, Wendell, Lenny!!!

Além disso, ou estou muito enganado ou me disseram que boa parte dos jogadores que aí estão vieram através de uma parceria, sem ônus para os cofres do clube. Coisa de primeira mundo. Então, meus caros, esse argumento também é furado, pois ou resgatamos o clube das mãos de terceiros e explicamos aos torcedores que os preços são necessários, já que ‘a partir de agora’ o Palmeiras não se utilizará mais de intermediários, será – a partir de agora – o dono de seu destino e de seus atletas, ou há algo de errado por aqui, afinal, argumenta-se que os aumentos dos ingressos são para termos bons times, e não os temos; aumenta-se os preços dos ingressos para termos um Palmeiras forte, mas o forte é o parceiro; aumenta-se os ingressos com a desculpa de bons jogadores, mas temos uma infinidade deles que nem perto disso passam.

Finalmente, o último argumento, mas esse ainda não há quem o defenda; muito menos eu. Poder-se-ia argumentar que os preços são majorados porque a contrapartida nos é oferecida nas instalações do espetáculo. Mais uma falácia, pois como todos sabem as coisas não são assim. Ainda nos acomodamos no cimento, os banheiros ainda são nojentos, a comida é de péssima qualidade (cachorro gelado), a bebida idem (refrigerante quente) etc. Mas, é aqui que mora o perigo, pois vem aí uma arena – que apoiamos como projeto e na campanha por sua aprovação – e já pode-se imaginar que esse argumento será utilizado para justificar outros aumentos e exclusões quando ela estiver pronta.

Como podem ver há argumentos tanto para defender os aumentos como existem contra-argumentos para refutá-los. Preferimos ficar com aqueles que pregam – mesmo que no deserto – que saídas sempre à direita, à custa dos menos abastados, são sim um processo de elitização, exclusão e higienização dos nossos estádios.

É melhor acordarmos, pois se as coisa continuarem assim somente sobrarão os consumidores. Como eu já escrevi, para a desgraça do futebol, e principalmente do Palmeiras, isso é uma desgraça, pois consumidores tanto podem ir ao jogo de futebol quanto ao teatro, bastando para isso que lhe ofereçam aquilo que ele busca: um bom espetáculo.

___________________
Em tempo: existem outros fatores – externos ao Palmeiras – que também atuam para expulsar os torcedores dos estádios: dificuldades em adquirir ingressos, dificuldades de transporte, horários pornográficos para os jogos, violência (entre torcedores e da PM para com os torcedores) etc. Mas, esse é um outro capítulo de nossa luta, trataremos deles em outras oportunidades.

Sobre o tema leiam também: O esporte que vendeu sua alma.

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8 Respostas to “Editorial”

  1. verdedosverdes Says:

    Caraca, no meu blog e no´s comentarios do cruz apoiei o Rapha, e concordo plenamente contigo, acho um absurdo o aumento abusivo, além de depois de ter lido seu post minha visão de ser contra tudo isso só ficou mais clara e consegui ver outros fatores totalmente desfavoráveis a essa palhaçada. Parabéns por conseguir ser mostrar tão claramente os fatos, na minha opinião palmeirense que ler seu texto e continuar achando o valor dos ingressoso abusivos, ou é burro ou ainda não descobriu que o mundo vai além de seu umbigo.Raul.

  2. verdedosverdes Says:

    ERRATA:Palmeirense que não achar o aumento abusivo deve ser burro….

  3. cruzdesavoia Says:

    Parabéns pela lucidez, meu caro! Eu, vc, o o Bezouro, o Barneschi, o Arquibaldo… infelizmente, seremos apenas vozes vencidas em pouco tempo.

  4. Rafael Says:

    O texto está genial. Vamos ver se existe defensor dessas idéias bom o suficiente para contra-argumentá-lo.É como é triste ver o nosso futebol sendo tratado desse jeito.

  5. Ademir Castellari Says:

    Rafael, espero que até haja quem queira debater. Vamos ver os argumentos de quem se propuser a fazê-lo. abraço.

  6. Ademir Castellari Says:

    Seo Cruz, nem que eu seja o último dos moicanos. Não me agrada frequentar estádio com consumidores.

  7. Ademir Castellari Says:

    Verdedosverdes, valeu pelo elogio e vamos à luta. Não podemos deixar transformarem o futebol apenas em um produto de consumo, elke é muito mais que isso. Valeu pela visita e pelo comentário.

  8. Rafael Says:

    “Não me agrada frequentar estádio com consumidores.”É exatamente isso. Tem uns babacas que dizem para você se adequar aos novos preços e criar suas próprias condições de ir ao estádio mesmo com os preços elevados.Mas mesmo que já possamos pagar por isso ou cheguemos a essa condição no futuro, o problema não é esse. O que incomoda são as novas companhias, que não agradam.E o problema nem é só o preço, mas esse conjunto de ações que Visa acabar com a festa das arquibancadas.

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