Carta aos elitistas

Essa veio lá do blog do Barneschi (Forza Palestra). Aqui apoiamos e assinamos embaixo:

“Caros” diretores da S.E. Palmeiras,

O nosso time reserva estreou no BR-09 contra o Coritiba sob os olhares de 19.105 pagantes. Sábado à noite, mas com ingressos a R$ 20. Não era para tanta gente, e só foi assim porque houve bom senso no preço cobrado pela arquibancada. Duas semanas depois, foi a vez de os titulares encararem o SPFW. Clássico. Domingo ensolarado, 16h. E o público, vejam os senhores, foi de exatos 12.000 pagantes. Merecia mais gente, muito mais.

Acontece que o torcedor não foi tratado com o devido respeito. Sem dinheiro no bolso – é fim de mês – e com uma decisão ainda mais cara na mesma semana, o povo não pôde ir. E o Palmeiras pagou caro pela ganância e por um certo ranço elitista que predomina entre tanta gente aí do lado de dentro dos portões sociais.

Caso vocês não tenham se dado conta, é meu dever informá-los: este aí é o público de R$ 40. É um misto entre o espectador qualificado, aquele que exige conforto em troca do direito de consumir, e os abnegados que se esforçam para deixar quase 10% de um salário mínimo na bilheteria. E, a bem da verdade, a tal platéia selecionada nem deu as caras no domingo – vide o percentual de ocupação do Visa e das numeradas. No setor popular – pra quem? –, a concentração era visivelmente maior.

Fato é que nossa torcida não difere muito do restante da população brasileira – felizmente é assim. Portanto, dos tais 15 milhões pelo país, a maioria é povão. E é este povão que faz do Palmeiras um clube de massa e que nos permite alcançar patrocínios elevados e receitas milionárias com emissoras de TV, licenciamento de produtos e que tais. Não é justo onerar novamente este povo, ainda que seja em busca de um suposto equilíbrio financeiro.

Eu bem sei que há quem queira, digamos, qualificar o público que vai ao Palestra. Não é o caso, por exemplo, do professor Belluzzo, por quem tenho o maior respeito, consideração e confiança. Mas é o caso, digamos, de um certo Ebem Gualtieri, que disse isso com todas as letras no ano passado. E sei que mais gente pensa assim.

É elitista, é reacionário, é desprezível. E é, antes de tudo, uma agressão ao torcedor palmeirense e a tudo o que o futebol representa para a cultura popular brasileira.

Sei que os defensores do futebol moderno virão com o discurso de crápulas como o tal Casares, o marqueteiro do mal. Que é preciso se adequar aos padrões europeus, alavancar as receitas, fidelizar consumidores e toda aquela besteira. É, eu sei. Mas deixo o alerta: esta opção trará prejuízos irremediáveis. Talvez não agora, mas em médio e longo prazo, em especial pela perda de identidade com a massa. Este é o grande risco. Foi o que aconteceu na Inglaterra, onde o futebol perdeu sua alma.

Por enquanto, digo aos senhores elitistas que o público que vai a campo para empurrar o Verdão (e que será a maioria entre os 27 mil da próxima quinta-feira) é logo este que vocês querem afastar. Muitos podem ficar um pouco distantes devido aos preços altos, mas a resistência faz parte do que somos.

Os elitistas terão de conviver ainda por muito tempo com os “vândalos, marginais e arruaceiros” e com aquele povo feio que vem de ônibus e Metrô, e que insiste em superar qualquer desafio para ver o time em campo. E terão de aceitar a arquibancada tomada por aquela gente barulhenta, que pula sem parar e canta com a alma apenas porque quer fazer (e não ver) o Palmeiras vencedor.

Porque esta é a gente que ama o Palmeiras e o futebol. É este o público que estará sempre presente, ainda que em doses homeopáticas se for mantido o preço de R$ 40.

A verdade é que estamos apenas no início do campeonato e este tal público qualificado tem mais o que fazer. São Paulo, como se sabe, é uma cidade com atrações aos montes. Teatro, cinema, bares, restaurantes, tudo ao alcance desta gente bonita e selecionada. E, convenhamos, platéia tão seleta não gosta muito de tomar chuva ou de chegar em casa tarde da noite. Tampouco de ir ao estádio no domingo às 18h10 para sentar a bunda no cimento molhado.

O público qualificado, isto é certo, vai dar as caras nas rodadas finais, desde que o time tenha chances de brigar pelo título. Porque então tudo muda de figura, e o que era um simples jogo de futebol ganha um caráter de espetáculo, de atração, de evento midiático. Espetáculo: é o que deseja esta gente bonita, moderna e antenada.

Até lá, temos mais 34 longas e extenuantes rodadas. E, sinto dizer, vocês terão de agüentar a horda de sempre, que se vê obrigada a pagar R$ 40 para sustentar a ganância de alguns poucos. Só não sei até quando o bolso do povo vai resistir aos sucessivos assaltos.

A decisão é de vocês. Mas o Palmeiras não; o Palmeiras é do seu torcedor. Querer tirar do povo o que é dele por direito vai custar muito caro. E não há equilíbrio financeiro que dê conta disso…

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