Pontos corridos x mata-mata

Também vou entrar nesse debate.

O Barneschi escreveu ser contra os pontos corridos. O Conrado a favor dos mesmos. Cada qual com seus argumentos, alguns que concordo e outros que discordo; e isso é claro, pois não fosse assim não estaria escrevendo essas linhas.

De cara, uma coisa tem que ficar clara nesse assunto: tem gente boa tanto do lado dos que defendem os pontos corridos tanto quanto do lado daqueles que o detestam. O que não vale é como faz certa mídia ‘do bem’, comandada por arautos da Verdade que divide o mundo entre ‘bons e maus’, em conformidade apenas com suas posições, e de acordo somente com sua própria régua; aqueles que estão comigo são do ‘bem’, os que estão contra mim são do ‘mau’.

O Juca Kfouri prefere os campeonatos – e lutou por eles – de pontos corridos; o Cléber Machado já disse que gosta de fases finais. Não é isso que define se são do bem ou do mau. São apenas pontos de vista que devem ser ouvidos, debatidos, respeitados, aceitos, rejeitados, tudo no mais alto nível e respeito. Aliás, não é isso, em última análise, que define o caráter de ninguém. Nesse caso é uma questão apenas de preferência, desde que não haja outros interesses, econômicos – por exemplo -, envolvidos. Nessa discussão entre o Barneschi e o Conrado, e que eu me envolvo agora, o que está em pauta é – como já foi dito – uma questão de interesse, uma questão de como se enxergar o futebol. Legítima, de ambos os lados, diga-se de passagem.

Bem, vamos àquilo que eu penso.

Em primeiro lugar sou daqueles que acham que devemos, imediatamente, sob pena de nos transformarmos em aquilo que não somos, parar de copiar modelos que nada tem a ver com nossas tradições, ou se formos fazê-lo – para que em uma longínqua data o sejam – que o façamos por inteiro, e preservando as características que os fazem atrativos. Nada de cópias mal feitas ou pela metade. Explico-me. Gosto da Copa do Brasil e do ‘modelo’ mata-mata, mas isso – a Copa do Brasil – é uma cópia mal feita de campeonatos europeus do mesmo tipo que já existem há décadas. Por lá o número de participantes é imenso, chegando inclusive a aceitarem times amadores. Desde que demonstre vontade e condição – econômica, técnica, logística, estádios etc. – uma equipe pode pleitear participar de tal competição. No Brasil não. Aqui são fatores políticos (da política esportiva, inclusive) que definem os critérios de participação.

Nesse caso, os ‘mata-mata’ – em todas as suas fases -, com exceção das finais, são justificáveis, dão um caráter mais democrático, já que neste tipo de confronto o imponderável, aquele que faz de quando em vez ‘um David derrotar um Golias’, está presente e é justificável. Então, gosto do modelo, não em todas as competições, e não da forma como foi concebido em nosso país. Parece-me que aqui é apenas uma forma de agradar alguns aliados políticos, que precisam de votos e visibilidade, ligados a alguns clubes que precisam de atividade e são ‘convidados’ a participar de um torneio com os grandes. Nada de um torneio que prima pela democracia, onde todos – repito, todos – podem participar. O objetivo maior: todos tendo a possibilidade – de acordo com sua sorte, competência ou tabela favorável, por exemplo – de se sagrar campeão, inclusive um desconhecido time amador do interior da Bahia…

Da mesma forma que o Barneschi não gosto dos pontos corridos. De início, confesso, achava que um certame nesses moldes seria a expressão da justiça. Mas, depois de alguns anos acompanhando campeonatos nesse molde também confesso que acompanhar um campeonato que premia não o melhor, mas o mais ‘regular’, tendo a pender minha balança – nada mais iconográfico em relação à justiça que a balança – pelo lado da rejeição desse tipo de disputa.

Não sei como se faria isso, mas o ideal – para mim – seria um campeão do primeiro turno decidindo em dois jogos (ou três em caso de igualdade ao final desses dois primeiros jogos) o título do campeonato brasileiro com o campeão do segundo turno. Aí alguém poderá dizer que o campeão do primeiro turno perderia o interesse no segundo turno. É verdade, mas daí, caso isso ocorresse, haveria o perigo do rebaixamento. Além disso, em caso de repetição do mesmo campeão (primeiro e segundo turno) não haveria a necessidade da decisão. Poderia alguém dizer que já é isso que acontece com os pontos corridos. Mas, não é. O Goiás, por exemplo, não me lembro quando, fez um primeiro turno sofrível, chegando a estar na zona de rebaixamento, mas fez um segundo turno que – se não me engano – o credenciaria, por esse critério, ao campeonato do returno e, dessa forma, a disputar a final do campeonato. Nesse caso, a equipe que se ‘planejou mal’, mas que corrigiu os rumos, não foi regular – foi ruim, mas depois foi muito bem – não teve o seu esforço por melhorar premiado, terminou – segundo os critérios vigentes – na zona da sul-americana, que no final não serve para nada.

Não sei se me fiz claro, mas é assim que penso. Mas, tem uma outra coisa que me incomoda profundamente. É o número reduzido de clubes na primeira divisão do campeonato brasileiro. Isso não foi destacado pelo Barneschi nem pelo Conrado, por isso não sei o que eles pensam sobre o assunto, mas acho que 20 (vinte) clubes é muito pouco.

Em primeiro lugar, porque somos, em matéria de população, muito maiores que os países que adotam esse critério (de novo uma cópia linear). Inglaterra, Espanha, França e Itália, que adotam o critério de vinte (20) equipes na primeira divisão, somados superam em pouco a população do Brasil. Isso já é um fator para nos fazer pensar.

Em segundo lugar, porque temos aqui uma ‘variedade’ de campeões nacionais muito maiores que nesses países. Aqui temos hoje na primeira divisão quinze (15) diferentes campeões, e se considerarmos ainda Vasco e Bahia que já foram campeões nacionais, mas estão na segunda divisão, teremos dezessete (17). Ou seja, se no próximo nacional todos os times que já foram campeões – não pensando em um campeão diferente desses nesse ano – estiverem na primeira divisão teremos pelo menos um desses rebaixado pelo critério atual (20 times e quatro rebaixados). Assim, não dá para igualarmos o número de clubes daqui com os dos países citados, não dá para igualar o desigual, e se clamamos por justiça (pontos corridos é tratado assim), a injustiça já se estabelece desde o início. E não me venham somente com a redução do número de rebaixados, o que corrige a injustiça é o aumento dos participantes do certame nacional da primeira divisão.

Opa, as datas? Sei lá! Talvez um campeonato brasileiro durante o ano todo, quem sabe. Uma copa do Brasil com os participantes da primeira divisão entrando somente nas fases decisivas; uma libertadores essa sim mais enxuta; o fim dessa aberração chamada sul-americana; o fortalecimento – não o fim como propõe alguns – dos campeonatos regionais como forma de acirrar ainda mais as rivalidades locais (foi assim que aprendi que um Palmeiras X Corinthians é o maior clássico do planeta).

Ah! Em tempo, e sobre outro assunto: Não me venham com esse papo de mudança de calendário como forma de sanar o êxodo de atletas. Isso é paliativo. Somente acordos com os europeus que não possibilitem a ‘canibalização’ de nosso futebol – como acontece hoje – resolverá o problema. Sonho? Talvez. Mas, as federações nacionais (como a CBF) dos países latino-americanos, têm que pensar não apenas em seus selecionados, mas tentar fortalecer os clubes – como faz a UEFA – senão, daqui a pouco, não haverá mais o produto que as enriquece, os jogadores nativos, pois os europeus com a força de seu dinheiro – ou com a fantasia dos mercados de capitais – nos destruirão; cedo ou tarde.

Em breve um texto sobre o ‘futebol moderno’ e a crescente campanha contra ELE que alguns – ou muitos – vêm empreendendo. Esta, mais ideológica que de opinião.

______________________
Sem revisão

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