Uma história verídico/ficcional

Isso eu não faço!


Adalberto era diretor de futebol de uma grande equipe de São Paulo. Havia vencido a queda de braço com os colegas de diretoria e conseguido demitir o técnico que era seu desafeto. Não que não gostasse pessoalmente, nem que considerasse o agora ex-técnico incompetente. Não!

Acontece que a filosofia de trabalho de ambos era diferente. Enquanto o técnico somente aceitava jogador do primeiro escalão, o diretor aceitava um ou outro “meia boca”, desde que acompanhados de um que viesse para resolver. Entraram em conflito e o diretor venceu a queda de braço. O técnico, Muriçoca, foi demitido. Isso, segundo consta, fez a alegria do “parceiro” do clube (ciffarT) que há muito estava descontente, pois seu poder de influência, seu poder de indicar contratações, havia cessado com Muriçoca.

Chegou um técnico em início de carreira, mas que havia sido ídolo da torcida, pois atuou com zagueiro na equipe em uma época de glórias, de títulos. Na semana anterior, dirigindo uma equipe de menor expressão, havia impingido uma histórica goleada contra a equipe de Adalberto. Foi contratado por Adalberto, pois ‘matava dois coelhos em uma só cajadada’: agradava à parceira e ao próprio Adalberto; Vago, para a alegria de ambos, tem a mesma filosofia de trabalho de ambos: aceita uma indicação “meia boca” aqui, outra acolá; não é como o exigente ex-treinador.

Carlos Vago teve uma carreira vencedora como jogador de futebol. Jogou por todas as grandes equipes do estado e conquistou títulos por todas, mas tinha em sua carreira uma mácula: cometeu um ato de racismo. Nada disso é problema, pensou Adalberto. Já foi, é passado, coisa menor!

Havia uma grande carência no elenco profissional dessa equipe. Precisava-se urgente de um centroavante, pois o que estava lá não agradava a torcida, além disso, ele era o único da posição à disposição do novo técnico.

O prestimoso Adalberto, que dizem não ser uma pessoa desonesta, apenas “ruim de serviço” (se é que vocês me entendem?!), saiu à procura de tal centroavante. A imprensa noticia que ele estava negociando com um argentino, que atuava na equipe do Rodoviário, de um país europeu. O nome do centroavante era Fizesse (uma espécie de Sciocco cover).

Contam que pela falta de aptidão de Adalberto o negócio não deu certo. A torcida não irá gostar, pensou ele. Preciso de uma boa desculpa para dar à imprensa, assim continuo com meu prestígio inabalado, pelo menos nas alamedas do clube. Preciso mostrar que sou competente, afinal meu sonho é ser presidente de direito, já que de fato o sou (Adalberto, apesar de ser apenas o diretor de futebol do clube tinha grande poder, afinal quem tinha votos não era o atual presidente, mas ele. É por isso, dizem, que mantém seu cargo e seu poder intactos, mesmo mostrando não ter grande aptidão para as “coisas do futebol”).

Adalberto precisava encontrar uma boa desculpa, pois a pressão contra ele aumentava. Mais um reforço que é anunciado, mesmo não sendo de primeira linha, e que não vem. Foi quando teve a brilhante idéia.

Raciocinou dessa forma: Fizesse já foi vetado pelo ex-treinador; ele só não veio tempos atrás porque Muriçoca vetou. E se disséssemos que… Não, e se novamente o técnico – agora o Vago – disser à imprensa que o Fizesse não veio porque ele vetou. Eu sairia bem da história, pois somente não contratei o centroavante porque sou ‘moderno’, democrático, respeito a opinião do comandante, do técnico. Faltava combinar com Vago, ou como no ditado: “combinar com os Russos”.

Adalberto procurou o novo técnico, foi responsável por sua chegada ao clube e mantinha amizade com Vago desde os tempos em que o treinador atuou como jogador no time. Ele não se negará! – pensou Adalberto.

Ele não vai criar empecilhos – pensou raciocinou novamente Adalberto; é só chegar à imprensa e dizer que não aprovou o nome veiculado; que sugeriu outros e sigilosos ao presidente – ops, ato falho! -, digo, Adalberto (eu mesmo!), e pronto, resolvido. Acho que não será problema, pois sou o responsável pela chegada dele aqui no clube, fui eu quem em tempo recorde (dois dias) o contratei, e tive que brigar muito para isso acontecer. Ele me deve essa! Só não contava que Vago mantinha intacto o temperamento e alguns conceitos da época de jogador.

Adalberto ficou surpreso ao ouvir a resposta do novo treinado da equipe, afinal, esperava gratidão:

– Isso eu não faço! Disse Vago, e foi saindo do lado de Adalberto.

Os desdobramentos não sabemos quais serão. Nem mesmo se eles ocorrerão. O que sabemos é que, novamente, a torcida não está contente com o trabalho de Adalberto, seu nome é homenageado pelas arquibancadas em todos os jogos da equipe. Mas, ele segue à frente do futebol da tal equipe, afinal, ele é quem comanda, é o presidente de fato, pois – no frigir dos ovos – tem lá seus votos no conselho deliberativo. O que não é pouco.

Em tempo: Essa é uma obra de ficção. Qualquer semelhança entre nomes, fatos e realidade é mera coincidência. E se me perguntarem se isso tudo é verdade eu desminto[1].


[1] – Homenagem e inspiração: Blog: DoLaDoDeLá.

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3 Respostas to “Uma história verídico/ficcional”

  1. Thell de Castro Says:

    Parabéns pelo post. Contou a história muito bem. E o final, do “em tempo”, foi ótimo…

    Valeu Thell. É que leio o blog DoLaDoDeLá e ele tem um estilo de post assim. Histórias/ficcionais/reais. Eu gosto e quis homenageá-lo. Um grande abraço.

  2. Marco Aurélio Mello Says:

    Obrigado pela gentileza Adcastellari! Abraços, MAM

    Poxa, é um prazer receber sua visita por aqui. Sou leitor assíduo de seu blogue, o qual reputo um dos mais interessantes da blogosfera. Abraço e volte sempre. Ademir.

  3. Lucas José Says:

    algumas criticas sao certas…o farias nao veio como sabemos dessa vez nao foi incompetencia do belluzzo…
    esqueceu de citar que o muriçoca vetou um “meia boca” que fez 4 gols em sua estreia no SP….
    mas algumas criticas embutidas eu ate concordo…falta o cipulo.

    Ele está aí, pode ter certeza!

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