[OFF] Racismo ou preconceito?

Quando se trata de ofensas racistas, em um país que tem em seu passado a mácula da escravidão, o assunto toma proporções gigantescas. É gente dizendo ter um ou dois amigos negros, por isso não ser racista. É gente incorporando o racismo em seu discurso, dizendo ser uma ofensa ao macaco compará-lo a um negro. Dessa forma, o que não se pode, e não se deve, é tapar o sol com a peneira. Uma boa discussão sobre o tema serve, inclusive, pedagogicamente. Eu não me furtarei de emitir minha opinião sobre o caso.

Está mais que claro que no Brasil existe um componente racial que divide a sociedade, basta para isso que entremos em uma universidade pública e observemos quantos ali são, para usar o politicamente correto, afro-descendentes. Está bem que com as cotas isso vem sendo superado, mas não enxergar que existe essa divisão é fazer coro à Rede Globo e ao seu guru Ali Kamel.

Concordo também que, para além da divisão entre brancos e negros, a maior segregação em nossa sociedade, aquela que divide a população em cidadãos de primeira e segunda classe, é a social. Essa divisão tem como resultado que, por aqui, os pobres nada têm e podem e os ricos, pelo contrário, tudo podem e têm.

Feito essa pequena introdução, quero deixar claro que considero o racismo uma das coisas mais abjetas e baixas praticadas por um ser humano. Procurar desmerecer outro ser humano por conta de sua raça (cor) – ou credo, gênero, orientação sexual… – é para mim, para além de um crime previsto em lei, e que deve ser punido rigorosamente, digno de pena.

Porém, quero dizer que – em meu entendimento – um ato racista, como o praticado ontem pelo zagueiro Danilo, não configura que quem o praticou seja necessariamente um racista. Ressalto que Danilo cometeu o ato, pois não dá para brigar com as imagens, nem com o áudio onde se ouve, claramente, ele proferir a ofensa. Devemos diferenciar racismo de preconceito. Danilo foi preconceituoso em seu ato.

Sendo que o ocorrido aconteceu em um campo de futebol, e o futebol é uma metáfora/caricatural da sociedade, apesar de aparentemente ser um mundo a parte, podemos tirar de início duas constatações. A primeira é que o ocorrido ontem mostra com clareza que vivemos em uma sociedade onde o preconceito – veja que já não falo em racismo – ainda é fortemente marcado pelo componente racial. Nossa sociedade, construída economicamente na maior parte de sua história pelo trabalho escravo, ainda vê no negro aquele que aqui veio para executar o trabalho braçal e pesado, aquele que aqui foi trazido, à força, para servir e não para freqüentar o mesmo ambiente que os brancos, aqueles que são relacionados imediatamente com os senhores; por isso talvez muitos ainda os enxerguem como sendo inferiores. Isso, a modificação dessa visão, leva tempo, é um trabalho diuturno de policiamento pessoal e de educação coletiva. Cada um deve, como diz a propaganda governamental, saber onde guarda o seu racismo. Todos devem ser educados para a convivência, a tolerância e o respeito mútuo, independente de classe ou raça…

A segunda constatação é que esse mundo a parte, ou essa percepção do futebol como um mundo a parte da sociedade, está se esvaindo. Neste caso, quero dizer que tenho a impressão que querem transformar um esporte que tem como finalidade, inclusive, sublimar os sofrimentos do dia-a-dia (alguns buscam isso de outras formas, nas drogas, por exemplo), em um campo onde a realidade seja mais realista não que o rei, mas que ela própria.

Lembro-me de vários atletas de futebol, Pelé inclusive, dizendo que o que acontece em um jogo de futebol, dentro do campo, ali deve ficar; acabado o jogo – os noventa minutos de êxtase e de sublimação da realidade – todos voltam ao seu dia-a-dia, às suas famílias, aos seus papéis de respeitáveis pais de família, de trabalhadores (no caso dos torcedores), de cristãos, muçulmanos ou evangélicos, de ricos ou pobres…

Quando essa lógica é subvertida, a de que o jogo continua na dura realidade do dia-a-dia, assistimos a espetáculos de execração pública, como a que está acontecendo agora com Danilo (condenado impiedosamente pela maioria da mídia esportiva) ou como a que aconteceu com Desábato, quando de episódio parecido. Devemos lembrar que Grafite, o que foi ‘ofendido racialmente’ por Desábato, em entrevista – depois de ter ido jogar na Europa – disse que ele não deveria ter levado o caso adiante, que o fez por pressão dos dirigentes do clube que defendia à época. Aparentemente, o jovem zagueiro do Atlético Paranaense (da cidade de Curitiba, uma das mais segregacionistas que conheço no Brasil) está servindo ao mesmo propósito que serviu Grafite, o de criar um clima de ‘desconforto’, no atual caso ao Palmeiras, em seu jogo de volta que será realizado na casa do(s) ‘ofendido(s)’.

Finalmente, cabe aqui mais uma ou duas considerações. A primeira é que alguns dirão que mudei de opinião sobre o tema, pois nesse mesmo espaço critiquei a diretoria do Palmeiras por contratar Antonio Carlos como seu técnico, a quem acusei de racismo [leia aqui]. Pois bem, não mudei de opinião. Para mim as duas situações são diferentes. Danilo foi preconceituoso e Antonio Carlos racista.

Danilo, no calor do jogo, depois de levar uma cabeçada e de ter sua família ofendida (isso surgiu hoje em entrevista de Lincoln em um canal de televisão) reagiu com uma ofensa racista, dirigida apenas ao seu detrator, porém, que foi ouvida por outros atletas e – desafortunadamente para o zagueiro – foi flagrada pelas câmeras de TV. Poderia, por exemplo, ter reagido com violência física, ter desferido uma cabeçada no peito de Manoel da mesma forma que Zidane fez com Materazzi ao reagir a uma ofensa também dirigida a um de seus familiares. Não o fez, achou que recuperaria sua honra familiar subtraída pelas palavras de Manoel com uma ofensa.

Por seu turno, o nosso técnico, que já pagou pelo crime que cometeu, diga-se, não apenas cometeu um ato racista, mas o fez procurando humilhar publicamente o seu adversário, buscou expor a condição de negro, de forma a tentar rebaixá-lo por isso, para todo um estádio. Com isso demonstrou que procurava angariar adeptos ao seu ódio discriminatório contra Jeovânio; procurou se diferenciar racialmente – e em público – e mostrar uma pretensa superioridade, mostrar que aquilo que ocorria era basicamente porque existem ‘coisas’ de brancos e ‘coisas’ de negros, sendo que os primeiros agem corretamente, ao contrário dos segundos, somente por terem a cor da pele diferente. Para mim, são situações distintas, uma preconceituosa e outra discriminatória.

No caso, deixo claro que discriminação para mim é crime racista e de ódio, quem o comete deve ser punido com pena dura para que – mesmo que coercitivamente – se sinta constrangido a não mais cometer tal ato. Já no caso do preconceito, que também deve ser punido, mas com pena mais leve, cabe para além desta também um trabalho de conscientização, pois é algo anterior ao conceito – é pré, baseado, principalmente na ignorância, algo que com educação se resolve.

Além disso, ressalte-se que nesse caso as imagens mostram que Danilo reagiu – de maneira errada, diga-se, a uma agressão física e que tornou a ser praticada, pois as imagens mostram Manoel pisando no zagueiro Palmeirense em lance posterior. Ademais, aparentemente os áudios não captaram a ofensa dirigida à família de Danilo. Desta forma, as mesmas imagens que servem para condenar Danilo são um atenuante, não jurídico, pois não é disso que trato aqui, mas para a sua intempestiva – e lamentável, repito, atitude. Toda ação gera uma reação contrária e na mesma intensidade; é assim na física, é assim – infelizmente – nas relações humanas.

Para finalizar digo que no caso do Danilo o que tenho é apenas pena. Pena que se estende a milhares de outros como ele que, por sua ignorância, tratam preconceituosamente os diferentes. O azar de Danilo é que ele foi flagrado. Sorte dos outros milhares que a sociedade não é um imenso campo de futebol, só aparenta ser.

__________________________

O caso é polêmico, como já disse, mas não posso me furtar de opinar vendo que o “esporte” preferido de nossos tempos é construir ídolos para depois, por puro sadismo, fazê-los desmoronar.

VERSOS ÍNTIMOS

Augusto dos Anjos

Vês?! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera –
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te a lama que te espera!
O Homem que, nesta terra miserável,
Mora entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera

Toma um fósforo, acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro.
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa ainda pena a tua chaga
Apedreja essa mão vil que te afaga.
Escarra nessa boca de que beija!

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7 Respostas to “[OFF] Racismo ou preconceito?”

  1. Marcelo Contini Says:

    Sua crítica é pontual e vai bem no meio, no cerne dessa situação toda.
    No caso, Danilo não praticou um ato racista, mas de puro preconceito.
    Concordo com vc nesse ponto, e acho que, por conta de pura desinformação, estão deturpando os conceitos. Mas polêmica é o que sempre vai nortear esse tipo de situação.
    Danilo exagerou, merece ser punido, da mesma forma que Manoel, com suas agressões físicas.
    Não há santo nessa história toda, e sabemos mto bem que dentro de campo, esse tipo de ofensa só é uma ponta de tudo o que acontece.

    Santo não há no futebol, ainda bem. Afinal, é de uma competição que se trata e todos querem vencer, usando – inclusive – de estratégias de desestabilização psicológica. Abraço.

  2. Nelson da Cunha Says:

    Bom, como não sou grego e nem troiano, posso afirmar que, salvo algumas linhas que ainda não dissequei bem, assino embaixo de tudo que escreveu. É bem por aí. Racismo pressupõe uma condição de ódio, visceralmente criada, o que não foi o caso do episódio envolvendo o jogador Danilo, muito embora sua atitude se revista de uma grosseria infame, indigna de uma pessoa em estado normal. E numa partida de futebol, naquela pressão, poucos conseguem manter a normalidade.

    É isso, naquele ambiente – carregado de pressão e tensão – é difícil imaginar alguém pedindo por favor e usando o politicamente correto, o que não isenta o Danilo de ter sido grosso e ignorante. Abraço.

  3. Fabio Tatú Says:

    Caro,
    ontem no twitter disse que a atitude do Danilo foi racista. Na verdade não houve racismo e sim injúria racial. Aí concordo com vc. Não dá pra taxá-lo de racista pelo ato de preconceito que teve. Mas nada disso livra a cara do nosso zagueiro, que deveria ter uma atitude mais digna quando veste uma camisa como a nossa.
    Se Obina e Maurício foram dispensados porque brigaram em campo, aguardo a atitude da diretoria nesse caso.
    O que não concordo contigo, é que você não citou a cusparada do Danilo após chamá-lo de “macaco do caralho”.
    Cuspir na cara de alguém é das coisas mais abjetas que existem. É de um mau caratismo que só o Neto pode explicar.
    Como é de um mau caratismo o zagueiro atleticano pisar em Danilo e ir aos microfones dizendo que fez de propósito.
    Espero que o famigerado STJD puna exemplarmente o zagueiro atleticano pela cabeçada e pelo pisão em Danilo.
    E tbm espero que o mesmo STJD puna exemplarmente o Danilo pela injúria e a cusparada na cara do adversário, atitude covarde e escrota.
    Eu escrevi no twitter que outro dia estávamos comemorando a traulitada que o Marcos deu no Neto, chamando-o de mau caráter pela cusparada no juíz. Ou sejamos coerentes ou vamos assumir nossa passionalidade sem limites.
    Abs

    Caro Fábio, vc lembrou bem. Eu me esqueci de dizer que uma cusparada também é um ato baixo, dos mais baixos praticados por um ser humano. E espero que a diretoria tome atitude quanto a isso, como também dê conta do que será feito por nosso zagueiro ter criado uma situação que será explorada pelo adversário. Valeu pela lembrança.

  4. Loh Says:

    Mandou bem ;)
    A questão racial em nosso país é ‘como tapar o sol com a peneira’. Alguns justificam o ‘não ser racista’ dando exemplos de amigos,vizinhos, parentes,ex-namorados negros. Mas o buraco é mais embaixo, como vc bem grifou.É um mal legado cultural que precisa ser corrigido.
    Quanto ao Danilo, o fato de jogar no Palmeiras, faz a impren$inha cair matando.Qualquer falha nossa é um prato cheio.
    Os ‘meninos brilhantes’ do Santos, fizeram pouco caso de crianças carentes e pouco se ouviu falar.
    Assim como o Danilo, ‘os meninos santistas’ agiram errado.Foram até mais cruéis.Pq a gente sabe que na hora do ‘pega pra capar’, na tensão de um jogo, o sangue queima mesmo e fazemos merda.Mas acho que toda essa polêmica em cima do Danilo é exagerada.

    Pois é, o ato dos ‘meninos mimados’ da Vila, que tomaram uma atitude de INTOLERÂNCIA religiosa foi tratado como algo de importância secundária, e não o é, pois dias antes uns idiotas haviam invadido um templo espírita – no Rio – também em nome da religião, ou da intolerância religiosa. Mas, em nosso país uns são mais culpados que os outros. Valeu pela visita e pelo comentário.

  5. André Seoane Says:

    Pqp !! Baraglio Ademir !!

    Teu texto matou a PAU !!

    Valeu pela visita e pelo comentário. Mas, que é dureza ficar discutindo isso, quando deveríamos estar saboreando uma vitória importante, isso é. Abraço

  6. Luiz Carlos Says:

    Li muita coisa este respeito, mas nenhum com tamanha lucidez e inteligência na condução dos “detalhes”. Vocêr continua sendo “o cara!”. Valeu irmão, por isso é que lhe “acompanho” todos os dias. Porque vale a pena! Parabéns novamente.
    Fui.

    Não sei se fico envaidecido ou preocupado com o elogio, ele só faz aumentar a responsabilidade, mas – de qualquer forma – obrigado pela confiança. Grande abraço.

  7. Vinicius Duarte Says:

    Quando eu li o teu texto, me lembrei que já tinha escrito algo a respeito, quando Maxi Lopez xingou o Edcarlos de macaco. Acho que fazer esse barulho todo quando acontecem essas coisas em campo acaba jogando a favor dos verdadeiros racistas (que, infelizmente, são muitos). Enquanto isso, pessoas de pele escura são enquadradas pela polícia sem motivo ou barradas em porta de banco. E ninguém cobre essas barbaridades.

    Abraço,

    http://comfelelimao.wordpress.com/2009/06/25/racismo-ou-injuria/

    Estão querendo criar racistas onde eles não existem. Isso só serve para semear o ódio.

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