Dunga, a Globo e a Copa de 94

Via: Forza Palestra.

A Folha de S.Paulo de hoje oferece bons subsídios para um novo post na mesma linha do anterior. Vejamos, ponto a ponto:

O jornal, que nunca escondeu o seu ressentimento com as atitudes e declarações do técnico da seleção brasileira, estampa na capa do caderno de esportes o seguinte enunciado: “Com seu estilo truculento, suas convicções e manias, Dunga doutrina a seleção sem ser contestado por jogadores e comissão técnica”. Isso, na visão da FSP, tem até nome: dunguismo. Aí o jornal procura justificar essa premissa, e é até bem-sucedido. Ok; o ranço dos jornalistas da Folha contra Dunga é notório e eu sinceramente não vou contestar o direito deles de manifestarem isso e criarem suas próprias teorias.

Na mesma página, o jornal publica os “Dez Mandamentos do dunguismo”. Como o conteúdo é fechado e considerando que essa tabela nem apareceu na versão online, publico logo abaixo para apreciação dos leitores.

Meu veredicto: exceção feita ao 6, aí colocado com indisfarçável dose de ironia e maldade, eu concordo com todos os demais mandamentos. Destaques para o 2 (“Nada de privilégios à Rede Globo”), ao 5 (“A imprensa é sempre inimiga”) e ao 10 (“Mais importante é ganhar, não jogar bonito”).

Vejamos que, na mesma página D3 em que foi publicada a tabela, a Folha traz uma outra matéria, com o título “Técnico testa Júlio Batista e Daniel Alves”. Um breve trecho é o que importa: “A Folha acompanhou parte do treinamento secreto do alto de um prédio próximo à faculdade Saint Stithians, em Johannesburgo.” Malandrinhos os enviados especiais, não? Entenderam o “mandamento 5”?

Mais importante, no entanto, é o mandamento 10. Na mesma página D3, Paulo Vinicius Coelho manda bem (ou quase isso) na sua coluna de hoje. O título? “Não era Dunga”. O colunista procura desmistificar a imagem de Dunga como um jogador tosco e repara uma incorreção histórica ao dizer que “A opinião pública não questionava sua presença, em 1990. Dunga merecia ser titular.
Quando seu relógio marcar 13h36, portanto, uma injustiça histórica completará 20 anos. Nessas duas décadas, Dunga se livrou do rótulo colado em sua testa no Mundial da Itália. Os livros de história não revelam um brucutu. Neles está a imagem do capitão do tetra, levantando a taça, como líder da seleção brasileira.”

É bem por aí: nego passou esse tempo todo falando mal do cara, criou uma era supostamente negativa com o seu nome e agora vem se sentir injustiçado com os maus tratos e com a falta de educação dele? Quer dizer que nego pode avacalhar, xingar, estigmatizar e depois não aceita a postura combativa (e essencialmente pragmática) do treinador da seleção? É realmente de foder!

Do bom texto de PVC, me permito extrair um parágrafo extremamente significativo: “Difícil dizer se o ressentimento de Dunga tem mais a ver com o fato de ter virado símbolo da derrota de 90 ou com o Brasil jamais ter aceitado a vitória de 1994. Se tem a ver com a inócua discussão sobre a preferência nacional ser por vitórias como a de 1994 ou derrotas como a de 1982.”

Para matar a questão de uma vez por todas: eu não sei vocês ou o resto dos brasileiros, mas eu aceito sem qualquer ressalva a vitória de 1994. Foi uma vitória belíssima, de uma seleção exemplar, que protagonizou algumas partidas notáveis (a vitória sobre os EUA, na casa deles e com um a menos, os 3 a 2 sobre a Holanda, o sofrido 1 a 0 contra a Suécia, mesmo os 3 a 0 sobre Camarões).

Foi uma grande Copa, uma grande seleção, um grande momento do futebol brasileiro. Foi uma seleção que, depois de 24 anos de derrotas, fez o que precisava fazer. Foi em busca de um objetivo, entendeu que o futebol não é essa viadagem idealizada por Armandos Nogueiras da vida, mostrou fidelidade a uma concepção tática, alcançou as vitórias que precisava passo a passo. Fez sete jogos, ganhou cinco, empatou contra uma complicada Suécia (1 a 1, belo gol de Romário) e depois na final contra a Italia. Marcou 11 gols e tomou apenas 3.

(A própria Copa de 94 é uma injustiçada. Foi uma Copa com final disputada por dois gigantes em uma decisão de tricampeões. Uma Copa de grandes jogos, de grandes feitos, de alguns belos times. Uma Copa de uma Bulgária em fase unicamente brilhante, de uma Romênia de Hagi, de uma Suécia com um folclórico Ravelli no gol e de um belo time. Uma Copa de um Maradona injustiçado, de belos gols, de estádios enormes, de um país que precisava ser conquistado pelo futebol. Foi a Copa de Romário, o maior craque daquele década.)

Podem chamar de “Futebol pragmático”, “Futebol de resultados” ou como bem entenderem. Eu chamo de “Futebol vencedor”. Ao contrário de outras decantadas seleções de Copas anteriores, a de 1994 venceu. E convenceu. Fez o que dela se esperava, e o futebol é acima de tudo uma competição que adquire um caráter bélico a depender da visão de cada um. Querem espetáculo? Pois que façam bom proveito do circo, do teatro ou de qualquer dessas artes. O futebol não é nada disso.

Assim, ao contrário do que afirma PVC, eu aceito a seleção de 1994. Aceito a vitória (de um tempo onde eu ainda torcia pelo Brasil), o time, Dunga, Romário, Parreira, até o Bebeto. Aceito aquela conquista, cada gol, cada jogo, cada vitória, cada passo rumo a um título que as poéticas seleções anteriores deixaram escapar em meio às aspirações fantasiosas de um futebol como espetáculo.

Se Dunga é um símbolo da vitória de 1994, eu estou com ele. Mesmo sem torcer por esta seleção atual, me coloco ao lado do treinador da seleção nessa batalha contra a Globo e contra toda a ala reacionária e hipócrita da nossa imprensa esportiva. Porrada neles, Dunga!

***
Em tempo: a Folha de hoje é ao menos transparente ao trazer a seguinte notícia: “Fãs de Dunga realizam campanha pelo treinador”. Eu não chamaria esse povo todo de “fãs de Dunga”. São muito mais as pessoas que, como eu, abominam a emissora câncer. Todos os que estiverem contra a Rede Globo têm o meu apoio incondicional, amplo e irrestrito. PORRADA NELES, DUNGA!

_____________________

Comentário que fiz lá no Forza Palestra sobre o texto acima: Irretocável em todas as letras, vírgulas e parágrafos. Além disso, a tal seleção do espetáculo, aquela perdedora de 82, não era tudo isso que falam, e no fim perdeu para uma Itália, que se fez uma primeira fase mediana (à la Itália, eu diria), cresceu nas outras fases e derrotou o Brasil, mostrando mais conjunto, mais equilíbrio, tal qual a nossa (sim, eu reconheço a vitória, e a comemorei, em 94) na vitória nos EEAA. Com as devidas vênias este texto será reproduzido, ná íntegra, lá no Divino. Abraço.

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3 Respostas to “Dunga, a Globo e a Copa de 94”

  1. Lúu Novaski Says:

    Tudo que meus olhos precisavam ler! Hj qnd vi no Jornal Nacional o Dunga se humilhando pedindo desculpas aos torcedores, na boa, EU QUASE VOMITEI! Pior ainda ele tendo que falar do pai com problemas de saúde.. gente, que que isso? A imprensa é INIMIGA sim, PONTO. Esses jornalistas de merda quem deveriam pedir desculpas, isso sim ¬¬’ Mas ler esse artigo me tranquilizou mto! Saber que não sou a única q apoia o Dunga e odeia a Globo é confortante demais ^^
    Bjss ;*

  2. Zaca Camaró Says:

    Até quando esta Globo vai querer mandar em tudo. Alo Bim Lad manda um aviãosinho na sede da globo.
    Eu banco!!!!

    Dá-lhe Caetano!!!! (caetano é o nome do Dunga)

  3. Altair Acerbi Says:

    Me desculpe mas :

    Vc gastou muitas linhas pra defender um cara que não merece uma linha sequer……

    P: Pra quem acha que o gol é apenas um detalhe realemnte a COPA de 1994 foi maravilhosa……
    N aminha visão, o time do parreira ( me recuso a chamar aquilo de seleção ….) ganhou um título pura e simplismente porque a Itália ( que era de longe o melhor time com o melhor futebol daquela pobre copa) jogou com 2 jogadores totalmente sem condições ( Baresi e Baggio ).
    Se o baggio não tivesse machucado na vespera da final e o baresi náo tivesse sido operado durante a cop, hoje ‘vcs estarima amaldiçoando aquele time do parreira….
    Ser mal edicado e ser contra a imprensa e a Globo náo é e nem nunca será sinal de honestidade e isenção….

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