Sobre a homofobia!

Durante os próximos quatro dias reproduzirei textos sobre o tema homofobia, a propósito de uma faixa intitulada: “a homofobia veste verde” que apareceu em uma manifestação de parte da torcida do Palmeiras.

Os textos foram originalmente publicados no blogue VAI PARMERA! (agradeço ao editor por ter me autorizado a reprodução).

Ao final tecerei meus comentários sobre o tema, pois não posso me furtar de dar minha opinião sobre essa odiosa forma de preconceito, mas só ao final…

A tal faixa, apesar de ter aparecido nos meios de comunicação (e também por isso) não será reproduzida aqui.

Fiquem com o primeiro texto!

 

Ser homofóbico é ser antipalmeirense

Por Leandro Beguoci

Times de futebol são um jeito de ver o mundo. Ninguém se apaixona por um time por causa das cores, dos títulos ou do endereço. As pessoas se apaixonam porque ele expressa valores, idiossincrasias e até manias com as quais elas se identificam. Tem time que vende a imagem de time das maiorias. Tem time que gosta de parecer diferenciado. E tem time que se tornou um gigante singular porque criou um jeito de jogar bola (a Academia), um tipo de torcedor (o corneteiro) e um novo tipo de time: o time que matou o preconceito e inaugurou o mérito.

Por isso que a manifestação de alguns torcedores durante protesto da Mancha Verde, dizendo que a homofobia veste verde, é antipalmeirense, fundamentalmente antipalmeirense. Proclamar que um palmeirense é, por definição, um preconceituoso é ir contra tudo que o Palmeiras é e representa. Colocando a seco, aqueles torcedores disseram: se Messi e Cristiano Ronaldo forem gays, eles não podem jogar no Palmeiras. Tem algo mais antipalmeirense do que isso? Eu não conheço.

O Palmeiras nasceu como um time de colônia – da colônia italiana. Mas não apenas isso. Nasceu como o time da colônia que, naquele começo do século 20, era suja de graxa, de cimento e de banha de porco. Da colônia que não tinha dente na boca, que comia com a mão e que mal falava português. Da colônia que era a ralé da ralé: no começo do século 20 só tinha algo pior do que ser negro em São Paulo, que era ser italiano. E ao ser fundado por uma colônia e se expandir além dela, o Palmeiras concentrou todos os preconceitos sobre imigrantes e pobres e explodiu com eles. À medida que o Palmeiras crescia, o preconceito se escondia, encabulado, porque deixava de fazer sentido. Todas as teorias sobre “inferiores” que não podiam “alcançar a glória” caducaram. Os exemplos são fartos.

Quando os nordestinos começaram a vir para São Paulo, o Palmeiras foi um dos primeiros times do Sudeste a excursionar pelo Nordeste e a ter um ídolo nordestino, a comemorar título sobre título com jogadores nascidos fora de São Paulo. As décadas passaram e o Palmeiras quebrou a resistência contra estrangeiros e teve técnico argentino, em uma época em que as relações Brasil-Argentina não eram nem um pouco amistosas – e com ele teve momentos que marcaram a história do futebol brasileiro. Com essa vocação para inovar e coragem para aguentar todas as piadas, gozações e sacanagens (das mais inocentes às infames) que vieram junto com estas decisões, o Palmeiras foi se firmando entre os maiores times do mundo. E, não menos importante, como um time enorme, seguro de si, que podia falar: vem, preconceito, vem que aqui você não tem lugar. Aqui, no Palmeiras, vai jogar, vai mandar quem é bom.

A atitude do Palmeiras teve uma bela consequência – e não apenas para a superlotação da nossa sala de troféus. O Palmeiras ajudou a educar o Brasil. Ano a ano, pouco a pouco, o Palmeiras ensinou milhões de torcedores, com ídolos de várias cores, idades, origens, que uma pessoa tem de ser valorizada pelo que ela faz e não pela cor da pele, pelo lugar onde nasceu ou pela língua que fala. O Palmeiras cresceu mostrando que a excelência se conquista na pluralidade e no talento, não importa de onde ele venha. E vejam como as coisas se encaixam.

O palmeirense valoriza o mérito, e é só por isso que tivemos um time que é amigo íntimo do mérito: a Academia. O palmeirense valoriza o espetáculo, não aceita menos do que a excelência. É por isso que criou um tipo de torcedor exigente por natureza: o corneteiro. O Palmeiras que todos nós ansiamos ver de volta é o Palmeiras do mérito e da excelência. É uma verdade cristalina. O Palmeiras não funciona quando essas qualidades não estão muito claras – e é por isso que o Palmeiras só vence quando coloca o mérito como fundamento, como na época da Parmalat. O Palmeiras só vence quando é palmeirense. Por isso que a manifestação de prováveis integrantes da Mancha (ainda que não representem a organizada) é absurda, mas diz muito sobre o momento do clube.

Hoje, no Palmeiras, as mesquinharias estão acima do mérito. O preconceito, os ódios, os sentimentos minúsculos se instalaram no clube. A essência está lá, mas soterrada por caixas de quinquilharias de um armazém de ressentimentos. O resultado é que o Palmeiras é administrado por pessoas que se dizem palmeirenses, mas são, no fundo, antipalmeirenses. Elas deixaram a essência do clube de lado para se apegar às suas miudezas, às revanches, às vinganças caducas. Neste cenário, a manifestação homofóbica é tosca, mas faz todo o sentido.

Ainda que não tenha sido levada adiante pela Mancha, a manifestação reafirma a sensação de que a torcida organizada compartilha com os dirigentes que critica em manifestações e muros pintados uma aversão pelo mérito. É significativo que a maior torcida organizada do clube (ou alguns de seus integrantes) tenha hostilizado alguns dos nossos melhores jogadores nos últimos anos, colocando o mérito no final da fila e elegendo dedicação, vontade e, agora, homofobia como valores palmeirenses – não são. A faixa exibida no protesto do último dia 04 provém do mesmo universo mental das pessoas que acham que mais importante do que o Palmeiras são as suas pequenas vinganças, são as suas pequenas questões pessoais. A história do Palmeiras é marcada pela grandeza de caráter e pela segurança nas suas decisões. Um palmeirense não se importa com gozações – o palmeirense quer transformar “a lealdade em padrão”. Se o jogador estiver à altura do Palmeiras, um palmeirense de verdade vai bater palmas para ele independentemente da pessoa com quem ele dormir, da cor da sua pele, da sua religião, da língua que falar.

Por isso, repudiar a homofobia é ser palmeirense. Porque houve craques gays, há craques gays e haverá craques gays. E esses jogadores têm de saber que o Palmeiras estará de braços abertos para recebê-los pelo futebol que eles jogam e não vai dar a mínima para a pessoa que eles amam. Repudiar a homofobia é um dos inúmeros passos para que o Palmeiras volte a fazer jus ao que ele é.

___________________

Acompanhem amanhã: “A Tolerância Veste Verde.”

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Uma resposta to “Sobre a homofobia!”

  1. lo1914 Says:

    Muito boa iniciativa, Mestre. Reproduzir os textos que rechaçam essa palhaçada. Eu li ”A tolerancia veste verde” Muito bom tbm

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