Idéias e ações fora do lugar

Escrevi esse artigo para uma revista da PUC, a Ponto e Vírgula, no ano de 2008, ainda durante a fase de estudos que culminou com a minha dissertação de mestrado “O tradicional e o moderno no futebol brasileiro: do moderno e de elite a uma moderna elitização” no ano de 2010.

Vou reproduzir o artigo por conta de uma entrevista do CEO do Palmeiras, J. C. Brunoro, que diz querer “clientes”. Quem preferir pode lê-lo na própria revista clicando aqui, senão pode lê-lo aqui mesmo, abaixo.

De lá para cá muita coisa mudou, mas basicamente é o que penso sobre o tema.

Idéias e ações fora do lugar

Recentemente a Ordem dos Advogados do Brasil, subseção de São Paulo realizou um seminário intitulado “Futebol, direito ao lazer e tutela jurídica do meio ambiente cultural”. Estiveram palestrando pessoas ligadas ao ‘jogo da bola’, de advogados esportivos e até professores universitários que estudam o tema.

No último dia 23 de outubro o jornal “O Estado de São Paulo” publicou reportagem dando conta – com o seguinte título: “Crise gera pânico no futebol da Inglaterra” – de que o futebol entrou no olho do furacão da crise mundial.

Fora o fato de os temas terem ligações por tratarem do futebol e, mais precisamente, de fatores econômicos que envolvem esse esporte, os dois acontecimentos, separados por uma semana, se ligam de maneira contraditória, pois mostram que as idéias e as ações propostas pelos dirigentes e profissionais ligados ao futebol brasileiro estão em flagrante contradição com os últimos acontecimentos (crise econômica), e as saídas propostas para uma pretensa ‘modernização’ do ‘negócio futebol’ no Brasil podem aprofundar o afastamento dos torcedores dos estádios e o remédio, ao invés de curar, poderá matar o “doente”.

Durante a palestra da OAB, Marco Aurélio Klein, professor da FGV e Presidente da Comissão Paz no Esporte para o Combate à Violência nos Estádios da FPF, nos mostra que aqueles que resistem ou que criticam a forma que vem sendo discutida as mudanças em curso (modernização é o termo utilizado pelos que a defendem) no modo de gestão dos clubes brasileiros, seja no campo da organização do evento, na forma de se administrar os clubes, mas – principalmente – na forma dos clubes se relacionarem com os torcedores, ‘pregam no deserto’.

Segundo o palestrante, não há mais lugar para um futebol que não seja aquele voltado para os consumidores; hoje, não deve se oferecer mais apenas um jogo, mas um espetáculo. Deve-se modernizar os estádios, oferecer conforto e atrativos outros que não seja apenas o jogo em si.

Além disso, os clubes devem incrementar suas receitas com ações de marketing que busquem atrair ainda mais estes ‘consumidores’ (novos, inclusive), facilitando o acesso aos bilhetes, incrementando os produtos relacionados à paixão dos torcedores/consumidores etc. Até aqui nada de novo, e dificilmente alguém se dirá contrário a tais ações. O grande problema está em como isso se dará, pois, segundo o palestrante, para isso deve-se cobrar preços compatíveis com o que é oferecido; os nossos não são – em  absoluto – desse quilate, mesmo porque os estádios brasileiros, por exemplo, ainda são de padrão ‘africano’ (ainda segundo palavras do palestrante).

Entretanto, o problema se torna mais complexo com a continuidade do discurso, a partir do diagnóstico e das soluções propostas para essa, digamos, modernização do espetáculo, do ‘jogo da bola’. Senão, vejamos: se por um lado há uma crescente pressão para que a organização do espetáculo, o local dos espetáculos e o espetáculo em si tenham uma qualidade que atraia consumidores, não apenas torcedores, não há como não se cobrar preços compatíveis a isso. Segundo o diretor da FPF há uma marcha inexorável rumo à mudança do perfil daqueles que ‘consomem’ o espetáculo futebol. Chama atenção os termos que ora passam a ser utilizados para se falar do mundo do futebol e seus aficionados: consumidores, espetáculo, por exemplo. Eles, invariavelmente, utilizados em substituição a futebol, torcedores…

Na mesma linha Juan Rafael Brito, do departamento de marketing da Sociedade Esportiva Palmeiras, que se disse “torcedor” do clube pelo qual atua profissionalmente (vejam a ironia do destino) disse que – apesar de acreditar que há espaço para abrigar os torcedores menos abastados no espetáculo que deve ser oferecido – também vê os preços por aqui praticados como baixos. Ou seja, com outras palavras, de uma maneira mais branda, mas propondo as mesmas medidas, disse ser necessário que os clubes se organizem para ‘faturar’ mais com os consumidores do espetáculo (aí está a ironia novamente).

Se vislumbra aqui uma contradição entre espetáculo, consumidores, torcedores, preços. O professor Marcos Alvito, em artigo para a Revista Piauí, “O esporte que vendeu a sua alma” (ALVITO, 2007), nos mostra como essa aritmética espetáculo/preços transformou o futebol europeu em uma soma de resultado zero, onde os torcedores perderam, mas – principalmente – onde o futebol deixou de ser paixão para ser simplesmente business.

O importante aqui é perceber que está em curso um processo que está tomando contornos de um consenso entre aqueles que atuam nos bastidores do mundo do futebol, consenso esse que diz que há a necessidade de se criar uma nova relação entre os clubes e seus aficionados, que não será mais a tradicional relação clube/torcedores, mas uma relação empresa/consumidores.

Essas são idéias que vem hegemonizando o futebol atual, fruto de uma cópia mecânica – e sem relativizações, necessárias em meu entendimento – daquilo que ocorreu e ocorre – com o futebol nos países europeus, como por exemplo a Inglaterra. Fruto ainda de uma visão – subjacente – de que o torcedor é o ruído, aquele que deixa o ambiente poluído, feio, impróprio para a freqüência e para o consumo dos ‘diferenciados’: os consumidores.

A relativização deve ser levada em conta por vários motivos. Um deles, é que por aqui os níveis de salário são muito menores que os de lá. Se lá, onde os níveis salariais são muito maiores, houve um processo de elitização e aqueles que sempre foram os freqüentadores das arquibancadas foram afastados dos estádios, e hoje são empurrados para as transmissões dos canais de TV´s pagas (que praticam preços muito inferiores aos praticados no Brasil), o que acontecerá por aqui?

Talvez sejamos impelidos (os torcedores) a outras formas de lazer; aquelas que ainda não são consideradas rentáveis, aquelas destinadas aos ‘menos aptos a viver e conviver socialmente’ e, nesse  momento, aquelas que não requerem vultosas quantias para serem consumidas. A prática talvez ainda seja permitida, pois é dentre as classes menos abastadas que está a mão-de-obra – ou pés-de-obra, no caso do futebol – que impulsiona o lucro; é ainda da prática cotidiana que se abastece o ‘mercado’ mundial do futebol com os ‘artistas’ da bola.

Outro fator que deve ser levando em consideração é a diferença entre um torcedor de futebol e um consumidor de espetáculos. Queira-se ou não, há uma profunda diferença entre uma partida de futebol, com a participação ativa dos aficionados durante o jogo em si, com seus rituais, cânticos etc. e um espetáculo de teatro, por exemplo, onde o espectador, como o próprio significado da palavra mostra, apenas observa ou vê qualquer ato.

Tratar o torcedor apenas como um consumidor é um profundo equívoco. Ele é mais que isso, ele é parte do espetáculo. Aliás, o torcedor é aquele que lá está independente da qualidade do que lhe é oferecido, das condições do palco, das intempéries.

No caso do torcedor, o único fator impeditivo à sua presença é o financeiro. Já o consumidor, se há a necessidade de lhe oferecer determinadas condições para que ele consuma um determinado produto, deve-se concluir que não lhe sendo oferecido o produto com a qualidade desejada ele deixará de consumi-lo, ou seja, é um ‘público’ volúvel, que poderá trocar – e o fará – um jogo de futebol por uma peça de teatro, uma sessão de cinema ou um show de ‘tecno brega’.

Pois bem, é neste ponto que chama atenção a matéria do jornal O Estado de São Paulo. Nela se dá conta que com a crise mundial os clubes de futebol da Europa – por serem aqueles que mais pagam salários, aqueles que mais recebem cotas de televisão, pois têm os maiores craques para um espetáculo de qualidade, por terem ações na bolsa de valores, por terem financiadores (mega milionários) que, ou perderam dinheiro com a crise ou viram suas fortunas se esvaírem da noite para o dia – terão que reduzir o ritmo de suas contratações, de seus investimentos, vender os artistas (coisa que já fazemos há pelo menos três décadas) para fazer caixa etc. Ou seja, a qualidade do espetáculo tende a cair abruptamente.

Assim cabe uma singela pergunta: e agora o que acontecerá? Será que os exigentes consumidores não buscarão outro espetáculo? Será que não buscarão salas climatizadas, com poltronas confortáveis e com artistas outros que não sejam somente ‘celebridades da bola‘? O parágrafo final da matéria do Estadão não deixa dúvidas de que a resposta é sim: “…Se o atual modelo de gestão não for modificado (…) a conta final pode acabar no colo – e nos bolsos – dos torcedores, que receberão apelos dos cartolas para salvar seus amados clubes.” [o grifo é meu]

Isso mesmo, os clubes recorrerão aos torcedores. Mas que torcedores? Elementar: aqueles mesmos que há pouco foram afastados dos estádios pelo processo de elitização (esse que está em curso por aqui também); processo este, que eufemisticamente é tratado, no jargão dos administradores esportivo, como profissionalismo, mercado, consumo, espetáculo etc.

Esperemos que os administradores daqui aprendam – ainda há tempo – com os equívocos e absolutizações dos de lá, pois como escreveu Schwarz – para outro contexto, é claro – “as idéias…” estão “…fora do lugar” (SCHWARZ, 2000); mas, mais que as idéias o que está fora do lugar e do contexto são as ações propostas, pois estas mais parecem baseadas no puro deslumbramento com o que é importado, em um discurso – que busca um consenso – que vem sendo construído a partir de empresas de comunicação multinacionais (a ESPN é um exemplo disso), do que no entendimento do que seja nossa realidade objetiva.

Enfim, tentar construir o ‘novo’ em nosso país – em qualquer área –, a partir de uma falsa dicotomia (entre o que é moderno e o que é arcaico), é não ter apreendido nada sobre nossa história; mas esse é um tema que merece um estudo muito mais aprofundado.

* * *

Em tempo: Em um pequeno texto (Crise nos EUA afasta o público do esporte), no Blog Jogo de Negócios, do site Terra Magazine, o publicitário Fábio Kadow, nos alerta que a crise também atingiu o mercado esportivo norte-americano, que reinventa promoções (em tempos de crise) para segurar a assistência de seus aficionados; além disso, em outro texto (Vendem-se anúncios no Super Bowl), no mesmo espaço, o autor nos mostra que os patrocinadores já estão revendo suas estratégias de patrocínio e diminuindo a expectativa de investimentos. A crise, definitivamente, atingiu o mundo dos negócios esportivos, veremos como agirão os ‘modernizadores’ brasileiros.

            Bibliografia

ALVITO, Marcos. (2007) “O esporte que vendeu sua alma”. In: Revista Piauí, 15. dez.

CHADE, Jamil. “Crise gera pânico no futebol da Inglaterra”. http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/ 20081023/not_imp264854,0.php. (Consultado em 26/11/2008).

KADOW, Fábio. “Crise nos EUA afasta o público do esporte”. http://jogodenegocios.blog.terra.com.br/2008/12/01/crise-nos-eua-afasta-o-publico-do-esporte/ (consultado em 01/12/2008).

_____________ “Vendem-se anúncios no Super Bowl”. http://jogodenegocios.blog.terra.com.br/2008/12/02/17/ (consultado em 02/12/1008).

SCHWARZ, Roberto. “As idéias fora do lugar”. In: Ao vencedor as batatas: forma literária e processo social nos inícios do romance brasileiro. São Paulo: Duas Cidades. Ed. 34. 2000.

7 Respostas to “Idéias e ações fora do lugar”

  1. Aldo Amadei (@AldoAmadei) Says:

    Grande Ademir,

    Perfeito seu texto, eu acredito que o termo espetáculo, já vem do inesquecível Fiori Giglioti, quando ele dizia “Fecham-se as cortinas e termina o espetáculo”, mas devemos lembrar que naquele tempo todos ainda eram apenas torcedores.
    Eu particularmente não sou contra a modernização dos estádios, que ofereçam mais isso ou aquilo para o torcedor, ou como queiram o “consumidor”. Na minha humilde opinião, o “consumidor” que sentar no melhor lugar deve e deverá sim pagar mais caro, e parte desse valor deverá subsidiar o valor do ingresso daqueles que não podem pagar muito, pois eles os “TORCEDORES”, fazem parte do espetáculo e devem receber pelo show.

    Abraços.

    Um dia desses no pré jogo falamos mais sobre isso.

    Aldo

    É isso, assim deve ser. O torcedor faz parte do espetáculo, o cliente apenas o consome. Temos que resistir

  2. Gerson Guarino Says:

    Ademir , ótimo texto . Pena q nem todos pensam como nós . A euforia pela modernização do Futebol está tentando acabar com a única coisa q faz sentido na vida do torcedor ,q é o amor ao time de futebol . abs !

    São as taradas, Gê, as taradas. Tem pra tudo!

  3. Néspoli Says:

    Perfeito Ademir, já havia comentado sobre isso aqui http://avantiverde.wordpress.com/2012/12/10/torcedor-que-sustenta-futebol/

    Acho que perdemos mais essa, meu amigo.

  4. Marcus Robinho Says:

    Muito bom!

  5. Rogério Torres @RogerioTorresR Says:

    Ótimo texto.. faço das tuas as minhas palavras. A modernização que se aplicou nos bixa tempos atras e fizeram deles uma das mais vergonhosas torcidas do Brasil (e não estou falando na opção sexual deles), esta afetando atualmente nosso maior rival. A passos largos em nosso rumo, temos uma missão, lutar contra o sistema não por nós, mas pelos torcedores e pelas crianças. Se não no futuro, dirão que: “No meu tempo o futebol era de verdade!!” A dor da consciência é a pior dor.
    Luto por isso, quero que meus filhos sejam torcedores, que gritem, que mostrem opinião, que faça uma oposição sadia, que não faça parte de uma leva de manipulados.

    O dia de hoje esta servindo pra dividir os homens das crianças. Veremos no futuro quem estava certo.

    E antes que me julguem, aaaa como eu quero estar errado!!!

  6. Sergio Mendonça Says:

    Amigo na verdade o que estes “caras” querem é dinheiro, não importa se o valor do ingresso for alto ou se vier de um mega-traficante internacional.
    Eles querem dinheiro, sem olhar para a cor da camisa ou o distintivo que ela ostenta, só interessa o dinheiro mesmo se ele for sujo.
    Ficam falando bonito, modernizando palavras, pensamentos, escrevendo teorias, mais o que eles gostam mesmo é de dinheiro.
    Esses hipocratas estão acabando com o futebol na sua base, veja o caso do JUventus, o ultimo refugiu contra essa modernidade, seu estádio foi interditado pela FPF, porém os jogos continuam acontecendo no local.
    Se o estadio esta interditado para o público, nao deveria ocorer jogos, mais eles nao estão interessado nos torcedores eles só querem “holofotes” e é claro dinheiro.

  7. Diogo Volpati Says:

    Excelente artigo Ademir.

    Não sou estudioso de política ou futebol, mas é claro notar como nos últimos anos o futebol se rendeu ao mundo dos negócios. Atualmente o torcedor é tratado com descaso porque é aquele que menos gera receita ao clube, se comparado com o marketing, naming rights, patrocinios, etc.

    O que eu quero ver é o que acontecerá quando toda esse modismo de torcedor-consumidor passar, e a crise aparecer para esse mercado futebolístico brasileiro.

    Um time só sobrevive por torcedores, aqueles que alimentam o clube. Pode não ser uma torneira jorrando recursos, mas certamente os apaixonados de arquibancada jamais deixarão a torneira secar.

    #ForzaPalestra

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