Utopia versus distopia

Publicando texto do amigo Palestrino Raphael Sanz.

Por Raphael Sanz

Finalmente chegou o grande dia em que vamos ser novamente campeões brasileiros. A última vez foi contra nosso maior rival e tínhamos na linha de ataque Edmundo, Evair e Rivaldo, três gênios já aposentados. Eu era uma criança feliz naquela época. Hoje temos uns tantos outros gênios tentando provar seu valor como os de ontem provaram. E estão conseguindo.

Chego à rua Turiaçu, esquina com a Caraibas, atrasado, e sou recebido pelos meus amigos. Parceiros de sofrimento em tempos de vacas magras que agora prometem uma festa e tanto. Bianchi teve um coma alcóolico no jogo de volta da semi-final, em casa, contra o Flamengo, que vencemos por 4×2 de virada após estarmos por duas vezes atrás do placar. Foi uma catarse coletiva, como todo bom jogo do Palmeiras é. Tudo bem que o empate era nosso, mas a vitória estonteante melhorou nossa semana. E muito. O grande Leandro Iamin está lá degustando um espetinho e me cumprimenta com um abraço fervoroso. Daqueles que o mundo poderia acabar ali mesmo, afinal seremos campeões. Ademir mal consegue conversar de tanta emoção. Gabriel Santoro já está em algum canto gravando seu vídeo e os irmãos Sciarra distribuem seu zine palmeirista por aí. O Tito, como sempre, se posta atrás do bar do Dissidenti que agora tem uma mesa de pebolin nos fundos, tornando-o o melhor bar do mundo. Leo AD e Del Vecchio discutem a escalação da grande final que se jogará dentre instantes nesse domingo de sol. Pedro e Drips chegam com um isopor cheio de cerveja e estão há dias sem dormir esperando o apito inicial. A derrota por 1 a 0 no Mineirão no jogo de ida não nos abalou nem um pouco.

O estádio é nosso, a rua é nossa, o bairro e a cidade são nossos. É verde por toda parte. Até a prefeitura zerou a tarifa do busão neste dia pra facilitar nossa ida a este momento grandioso. Não tem como a taça também não ser nossa. E não foi por acaso que perdi um dia de trabalho na terça-feira enquanto estava na fila da bilheteria para pagar 20 reais no meu ingresso. 20 mangos e 1 dia ganhos na minha vida. Depois compenso no banco de horas ou arrumo um atestado. Vai valer a pena.

Entrando pelo fosso da Turiaçu, ergue-se um jardim suspenso à nossa frente. Uma verdadeira maravilha da humanidade. A coisa mais linda em termos arquitetônicos que o futebol pôde proporcionar à humanidade. Após reforma que durou 3 anos, o gol das piscinas ganhou um grande paredão de arquibancada que aumentou nossa capacidade em 20 mil lugares sem que para isso precise ter medo da imensidão azul chamada céu, como as tais arenas que existem na longínqua Europa. O pessoal do prédio ali de trás hasteia sua bandeira alviverde enquanto os bandeirões, fogos, papeis picados e corações saltam de nossa arquibancada de cimento, recebendo e empurrando o time que vai mostrar que de fato é o campeão.

O gol do Atlético Mineiro aos 8 minutos não nos desanima e antes de acabar o primeiro tempo já viramos o jogo. A alegria se mistura aos bandeirões e rojões enquanto uma multidão do lado de fora comemora. Na segunda etapa, o terceiro gol era questão de tempo para matar o jogo. Nosso volante rouba a bola, abre para o lateral esquerdo que ensaia uma corrida pra linha de fundo mas recua para o meia armador que, num passe de mágica, ou melhor, num passe mágico, deixa nosso centro avante cara-a-cara com o goleiro do Galo e…

Acordo meio desnorteado na cama. É dia de Palmeiras e Sport pela 32a rodada do Brasileirão de pontos corridos. O Palmeiras tem grandes chances de ser campeão, mas sem uma semi-final épica, nem tampouco uma final eletrizante. Precisa ganhar mais 4 jogos, dos 7 que faltam. E pronto.

Pego o ônibus para a rua Palestra Itália. Chegando lá não encontro meus amigos, mas a polícia militar que bloqueou todas as entradas de todas as ruas ao redor do estádio: Palestra Itália, Caraibas, Diana e Kayowaa. Só entra quem tem ingresso. Eu tenho, mas estou sem o comprovante de compra. O policial “embaça na minha” e quando consigo convencê-lo que meu cartão de sócio torcedor é verdadeiro entro e me deparo com dois tanques de guerra da tropa de choque e um torcedor palmeirense, negro, sendo duramente “enquadrado” por policiais. Fizeram o rapaz tirar a camisa e disseram palavras de baixo calão para o mesmo ali mesmo, na frente do estádio inteiro.

Sem churrasco e sem cerveja, dou a volta no quarteirão para adentrar um estádio que tem medo do céu e da luz do sol. Que tem ojeriza a bandeiras, fogos, papel picado e vizinhos. Que tem nojo de gente e de festa. Os telões dividem a atenção com o campo de jogo. A grama está ruim, afinal, a luz do sol não atravessa a cobertura que colocaram ali e para piorar qualquer show destrói o gramado. A solução mágica dos tecnocratas é limar essa arcaica grama natural e por uma sintética no lugar. As arenas nos afastam da imensidão do que restou de natureza em São Paulo. Policiais e seguranças do clube filmam a torcida em busca do menor delito. Afinal, são trabalhadores e precisam bater metas.

Meus amigos estão divididos. Felizes pela vitória e pela iminência de comemorar um título nacional. E tristes, mesmo com o time brigando de fato pelo título, por tudo o que perdemos enquanto povo futeboleiro em meio a uma modernidade artificial e sem coração. Especialmente tristes por não poderem ver o jogo juntos. Alguns, com condições de bancar os ingressos de 100 reais em média foram autorizados pela PM a frequentar a rua que há 96 anos é do Palmeiras. Outros não.

Trocamos palavras, gestos e votos de vitória à distância. Como à distância se posta cada vez mais o futebol daqueles que o fizeram grande.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: