Archive for the ‘Futebol moderno’ Category

Retornando à velha casa…

27/07/2016

Como eu disse no último post, há algum tempo, era apenas um até breve. Então, retomando as atividades do blog, vamos iniciar com um post sobre torcida.

Não passarão!

Nos últimos tempos algumas torcidas organizadas resolveram se manifestar politicamente nas arquibancadas. Ressalte-se que algumas delas já o faziam no passado, mas do que falamos aqui é dos protestos recentes nos estádios e em manifestações de rua.

Falamos dos protestos das torcidas contra o roubo da verba da merenda em São Paulo – o acusado foi promotor antes de ser político e era perseguidor, um verdadeiro algoz das organizadas, inclusive propondo e levando a cabo o fechamento de algumas delas. Trata-se de críticas e protestos pela forma como o futebol brasileiro foi, e é, entregue e controlado pela Rede Globo – sim, a rede de televisão que paga pelo campeonato faz o que quer com transmissão, horário e dia de jogos. A última da Rede Globo é uma rodada de segunda-feira que mais se parece com um quadro do programa de debates do canal fechado da emissora. O jogo em si é um detalhe. Enfim, as torcidas resolveram se manifestar politicamente e cobrar as autoridades. Resolveram se manifestar por melhorias no futebol brasileiro e no Brasil.

Torcidas organizadas são compostas em sua maioria por gente pobre, de periferia, negros, trabalhadores, jovens. São jovens que se agrupam por identificação a um clube de futebol, mas que buscam ali o seu igual, o que lhes foi negado na sociedade, a saber, um espaço de pertencimento. Por esse grupo matam e morrem (figurado e literalmente).

Dessa forma, esses agrupamentos juvenis são – e deveriam assim ser enxergados e tratados – movimentos de caráter social, que acolhem esses jovens pobres e de periferia. Esses, inclusive, realizam diversas ações de cunho social, na periferia, para os seus iguais de classe (independente do time que torcem).

Cabe ressaltar que depois que as torcidas resolveram se manifestar contra o status quo, a reação do poder constituído foi imediata. Em São Paulo, a repressão a esses agrupamentos recrudesceu, e a Polícia Militar, historicamente violenta contra esses grupos, e em geral, sempre agindo de forma desproporcional, resolveu reprimir os torcedores antes, durante e após os jogos. Tudo sob o comando e os “olhos moucos” do Ministério público e do promotor Paulo Castilho.

O Ministério Público resolveu instituir, inclusive, os clássicos com torcida única, sob o argumento de que a violência diminuiria. Não se deram nem ao trabalho de olhar para a vizinha Argentina que tomou a mesma medida e não resolveu o problema. Paulo Castilho, em recente “debate” sobre o tema, de forma autoritária e sem apresentar dados e fatos para embasar sua avaliação, disse que a medida é um sucesso e que agora o próximo passo é livrar o entorno dos estádios (o entorno do Palestra Itália, segundo ele, é “terra de ninguém”) dos torcedores. Esses, os excluídos das Arenas da Copa, agora serão, segundo a vontade do promotor, expulsos também das ruas.

O que o Ministério Público, parte da imprensa e de significativa parcela da população não enxerga, é que movimentos sociais têm as suas demandas, sua forma da organização, de atuação, se organizam de forma legítima e, inclusive, tem a garantia constitucional para funcionar.

Respeitar suas reivindicações, entender o contexto social no qual estão inseridos, dialogar, negociar com esses grupos é a forma mais eficaz de enfrentar o problema da violência – claro que se houver realmente a vontade de resolver o problema e não apenas apelar para ações pirotécnicas visando dar uma resposta fácil para a sociedade.

São Paulo, infelizmente, resolveu optar pelo caminho mais fácil: a repressão policial. Aqui se combate violência com violência. A polícia, com o apoio do MP, despeja bombas, gás de pimenta, e “baixa o porrete” (e a repressão é ‘democrática’, pois daí apanham organizados e não organizados) em quem estiver em sua frente, para na semana seguinte inventar uma nova teoria. A do momento é a cobrança de “pedágio” de ambulantes por parte dos organizados. A mídia, é claro, encampa o discurso repressor e excludente. O ciclo recomeça, a repressão aumenta, e o diálogo segue inexistente.

A violência? Ela existe, é claro. Não se nega isso. Porém, ela está em nosso dia-a-dia, em nossa sociedade, e está – inclusive – na PM, que é organizada para reprimir a população pobre, de periferia, negros, trabalhadores, jovens, movimentos sociais e torcidas organizadas. Não é com violência que se combate violência. Está no hora de testarmos a fórmula do diálogo, de ouvir o que esses jovens têm a dizer.

De qualquer forma uma coisa precisa ficar clara: haverá resistência contra a repressão, a falta de diálogo e essa política higienista e excludente. Não passarão.

O futebol dos gerentes

01/03/2013

Esse é um dos textos que eu gostaria de ter escrito em minha vida. Por isso o reproduzo aqui, é exatamente disso que se trata.

 

O Futebol dos Gerentes – por: Leandro Begoci (via: VIP)

O Maracanã morreu. O Mineirão também. O Palestra Itália já não está mais entre nós. Até o imortal Olímpico nos deixou numa tarde ensolarada de domingo. Aliás, para falar a verdade, eu mesmo não estou me sentindo muito bem… Os últimos meses têm levantado um cheiro suave de coroa de flores e, sabe como é, sou altamente influenciado por esse clima de velório. Quando morre uma parte do futebol, uma parte (grande) de mim também se vai.

Alguns desses estádios vão ser inaugurados com os mesmos nomes, é verdade. Outros vão se chamar arena mais o nome do time ou do antigo estádio. Provavelmente vão ser inaugurados por CEOs (o novo nome do velho cartola) que vão fazer de tudo para convencer os stakeholders (acostume-se: esse será o novo nome do velho torcedor) de que, afinal, o espírito do estádio foi apenas transposto para uma nova estrutura.

Mas, da mesma forma que você não ressuscita o seu avô quando coloca o nome dele no seu filho, manter o velho nome em um novo estádio é apenas uma homenagem. Bonita, é verdade. Bonita e inútil.

O que tem acontecido nos estádios, sob o pretexto da Copa do Mundo, é apenas a última parada de um caminho longo. O futebol, no Brasil, não é apenas um esporte. Já seria bastante, aliás, se fosse apenas um esporte imensamente popular. O futebol, nesta parte da América do Sul, é uma manifestação cultural poderosa, tão intensamente ligada à identidade do Brasil quanto a língua portuguesa. É pelo futebol que organizamos nosso tempo, nossas relações familiares e, em muitos casos, julgamos o caráter de outra pessoa.

É diferente dos Estados Unidos, por exemplo, onde os times se chamam franquias e mudam de cidade ou de cores como uma rede de lanchonete. Também é diferente do vôlei jogado no Brasil, onde os times têm nomes de empresas. Nos dois casos, a única ligação passional entre o time e o torcedor é o lugar onde os dois estão. O futebol transcende a localização. Um gremista, ao se mudar para o Recife, não passa a torcer para o Sport.

Isso acontece porque o futebol disseminou por toda a sociedade o estilo de vida dos trabalhadores das fábricas, que se espalhavam por amplas áreas das maiores cidades do país. Ir a um estádio de futebol, alguns anos atrás, era uma experiência semelhante a começar o dia em uma indústria. A comida na porta, as longas filas para entrar, a simplicidade do concreto armado, o desconforto das arquibancadas, o companheirismo de quem compartilha o mesmo destino difícil e suado.

À medida que o país mudou, o futebol também se transformou. Agora, quem vai aos estádios são as pessoas que trabalham em escritórios com ar condicionado, janelas amplas, em áreas próximas a shopping centers e usam palavras em inglês, mesmo com um belo similar em português – espero, aliás, que partida nunca seja chamada de “match” por aqui. Essas pessoas, filhas dos trabalhadores que frequentavam os estádios, agora querem que as arenas sejam mais parecidas com o mundo em que elas vivem. Com a Copa do Mundo, isso foi possível. É o fim do churrasquinho. É o começo do espaço gourmet.

Esse processo não aconteceu apenas no Brasil. A Inglaterra passou por isso na década anterior. A partir da experiência inglesa, é possível concluir que não são apenas os estádios que mudaram, mas a própria forma de amar o time. O torcedor que frequenta essas novas arenas dificilmente vai arrumar confusões violentas ou arremessar objetos no gramado. Esse novo torcedor quer conforto e segurança. Por outro lado, a relação dele com o time é muito mais de consumidor do que de amante. Ele fica decepcionado com o resultado como fica triste quando compra um carro novo que começa a dar defeito. Tem vontade de reclamar para o SAC do departamento de futebol. Ele não está preocupado apenas com quem fez o gol mais bonito ou qual time tem mais craques, mas quem tem o melhor departamento de marketing e quem lidera o ranking de venda de camisas. Talvez, no futuro, esteja disposto a gritar o nome do time mais o nome do patrocinador.

Não é uma questão de julgar, agora, se essas mudanças são boas ou ruins. O fato é que o futebol brasileiro morreu. E outro está começando a nascer em seu lugar. As arenas são apenas a forma em concreto e vidro que materializam essa mudança. Resta saber o quanto de paixão vai restar neste futebol dos naming rights.

Três pontos

Beatles e o Liverpool
Um dos momentos mais emocionantes do futebol inglês aconteceu em 1964, num Liverpool x Arsenal. O estádio, cheio muito além da capacidade, começou a cantar She Loves You, um dos maiores sucessos dos Beatles.

Heysel Stadium
Por outro lado, o Liverpool foi protagonista do desastre no Heysel Stadium, na Bélgica. Em 1985, na final da Champions League, contra a Juventus, 39 pessoas morreram e cerca de 600 ficaram feridas numa briga que traumatizou uma geração de torcedores.

Racismo
Os novos estádios ingleses são mais modernos, limpos e confortáveis. Sempre cheios, especialmente com pessoas das classes média e alta. Supostamente, mais educadas e tolerantes. Mas os casos de racismo na Premier League são comuns, ano após ano. A casa nova não acaba com todos os problemas, afinal.

 

Fora Tirone – atualizado

05/04/2011

Eu já escrevi isso aqui sobre a divisão de cotas de TV. Disse, resumidamente, que a fórmula de divisão que estavam propondo criava uma elite baseada em dois clubes e que a competição que é, em última análise, a essência do futebol será comprometida. Uma maioria me entendeu, outros vieram defender o mérito econômico, o negócio, como sendo o principal valor a ser buscado.

Agora, aparentemente, não adianta mais. Como diz o dito popular: ‘a Inês é morta’. Venceu o mérito econômico, perdeu o futebol e a competição, pois os clubes romperam com o C13, boicotaram a licitação (a RedeTV foi a vencedora do certame) e negociaram individualmente com a Rede Globo.

O Palmeiras – a partir desse ponto abandono a defesa do coletivo, e já que preferiram as negociações individuais, também o faço – acaba de assinar contrato também com a Rede Globo de televisão.

Fora o fato dos torcedores terem sido, e continuarão a ser, desrespeitados mais uma vez, pois os horários do futebol estarão por mais quatro anos determinados pelas novelas e os BBB´s, o que me chama a atenção, no caso específico do Palmeiras, é que o presidente do Palmeiras aceitou passivamente que nosso clube fosse rebaixado de patamar, aceitou que recebamos menos que SCCP e Flamengo – as informações variam de 30% a 50%. Há ainda o fato do Palmeiras ter que ‘mendigar’ junto à Rede Globo para que esta fale o nome dos nossos patrocinadores (o nome da nova Arena, inclusive. O que causará, com certeza, perda de receita na hora de negociar com quem quiser nomear o estádio).

Há algumas informações sobre valores na imprensa. O Palmeiras diz que a diferença do que receberemos não é inferior a 5% do que receberão nossos rivais. Outras dão conta de que o patamar é muito maior, chegando a 50% (como eu já disse). Disso se infere que ou nosso presidente aceitou um péssimo contrato e está nos enganando (sócios do Palmeiras e torcedores) ou o presidente do SCCP está a enganar a sua torcida e não recebeu os 103 milhões (em alguns locais chegou-se a cogitar 130) que alardeia.

Pouco me importo com a vida alheia. O SCCP e seu presidente tem todo o direito de negociar e receber os valores que acham serem os justos para o seu clube. O que não aceito, e cobro uma posição do Conselho deliberativo do Palmeiras quanto a isso, é que nosso time receba um valor tão inferior aos pagos aos outros dois clubes (o Flamengo ainda não fechou contrato com a Rede Globo). Isso, os valores inferiores, se baseiam em quê? Lembremos que ao romper com o C13 o presidente do Palmeiras disse que não aceitaria, de forma alguma, receber menos que nenhum clube.

Receber 30% ou 50% a menos que outro clube significa, podem escrever isso, uma hegemonia desses clubes no futebol nacional; significa que eles poderão contratar jogadores de primeira linha, enquanto ficaremos com as sobras; significa que continuaremos com um clube endividado, enquanto nas bandas de lá sobrará dinheiro. A Espanha está ai para nos servir de exemplo.

Provavelmente só saberemos os reais valores que foram pagos pela Rede Globo quando da publicação dos balanços dos clubes (exercício de 2012 – primeiro ano da vigência dos contratos). Daí poderá ser tarde demais.

Cabe ao Conselho Deliberativo, a oposição pelo menos, fazer desde já barulho e tentar barrar esse contrato lesivo aos cofres do Palmeiras. Não sei se há alguma maneira estatutária de se fazer isso, mas há posições políticas que podem ser tomadas. O que não cabe nesse momento é omissão.

Muitos dirão que em contratos há cláusulas de confidencialidade. Eu sei que elas existem, e tenho certeza que há nesse caso, mas o Palmeiras é um clube associativo e os sócios, através de seu conselho ou da assembléia de sócios, tem que ser informados sobre decisões que afetam a vida associativa. Foi assim com Arena, tem que ser assim com o valor a ser recebido para a exploração da imagem do clube.

A torcida, o maior patrimônio do Palmeiras, exige isso. Eu, torcedor e sócio do clube, exijo isso.

Todos os dias farei minha parte, não me omitirei, continuarei aqui e onde me for dada voz, a lutar pelo Palmeiras. Podem me chamar de Quixote, mas não serei omisso.

Por fim, lembro que Mustafá nos rebaixou uma vez, desta feita TIRONE também nos rebaixa!

O que gostaria de saber é se estão levando por fora.

Fora Tirone!

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Atualização: Quando a patrulha vem de onde você menos espera é chegada a hora de parar… Obrigado a todos que acompanharam esse espaço desde sua criação, passando pela mudança de nomes e chegando até a data de hoje. Fiz vários amigos por conta desse espaço, alguns inimigos também. Mas, valeu a pena. Volto a ser apenas aquilo que sei fazer melhor, torcer. Deixo as opiniões para os ‘especialistas’.

F I M !

Cotas de televisão – Republicado

21/03/2011

Por conta desse evento aqui: Coisa de maluco resolvi republicar o que eu já havia escrito sobre o tema.

A negociação das cotas de TV – aqui no Brasil – já passou. Estão, os dirigentes daqui, querendo ‘espanholizar’ nosso futebol. Os da Espanha tentam modificar e devolver a emoção e a competição ao seu campeonato.

Os dirigentes daqui, os colonizados e vira-latas, tentam nos usurpar o futebol…

Cotas de televisão – Republicado

Quando ouvimos vozes se levantarem contra o chamado futebol moderno, nós – os torcedores de arquibancada – entendemos muito bem do que se trata. Aqueles que apenas dizem gostar de futebol, na maioria das vezes, nos acham fora da realidade, atrasados… Utópicos.

Porém, o mercado – esse novo parâmetro de medida – que a tudo e a todos engole, paulatinamente, vem substituindo a competição, a emoção, o amor, por seu novo e único paradigma; a saber: o lucro. O esporte do povo, aquele que segundo o professor Marcos Alvito, ‘vendeu sua alma’, por aqui também – através de seus dirigentes – quer golpear de morte a seus torcedores.

Quanto se avizinha o tão sonhado dia da negociação das cotas de televisão, que pode dar aos clubes de futebol (a razão da paixão de milhares de brasileiro) a sua independência em relação a uma emissora que detinha a exclusividade nas transmissões, os submetia a sua grade de programação, e justamente pela exclusividade (monopólio), a valores menores, os dois maiores clubes do Brasil – em número de torcedores – apontam para um racha e querem negociar a sua parte (cota) em separado.

Se por detrás desse ‘racha’ temos algo além da divisão das cotas de TV saberemos mais adiante, mas nesse momento, é sobre a divisão das cotas que tratarei.

Futebol é, antes de tudo, um jogo onde a competição tem que se fazer presente. Destruir a competição é golpear de morte o futebol. O que querem Corinthians e Flamengo é, com a negociação em separado, um ‘privilégio’ que irá, a médio e longo prazo, aniquilar com a rivalidade, e, por conseguinte, com o futebol.

Na Europa, local onde nossos dirigentes sempre olham como o paradigma do futebol moderno, isso já vem ocorrendo, e isso muito se deve à forma como o dinheiro das cotas de televisão são negociadas e repartidas.

Tomemos como exemplo o campeonato espanhol, onde os direitos de transmissão são negociados separadamente.

Na Espanha, nos últimos quinze (15) anos, Real Madri e Barcelona se revezaram e ganharam o título nacional em onze (11) oportunidades. Méritos? Só se for o econômico. Para se ter uma idéia a dupla abocanha de direitos de transmissão três vezes mais que o segundo colocado em arrecadação, o Valência (€120 milhões x € 44 milhões). O Atlético de Bilbao e o Sevilha recebem € 20 milhões cada.

Podemos afirmar que isso gera uma distorção que faz com que a competição tenha um vício de origem. Ou seja, o poder econômico transformou a ‘liga das estrelas’ em um campeonato de apenas um jogo: Real e Barcelona.

Na Itália, por conta dessa mesma distorção, que faz com que Juventus, Milan e Internazionale se revezem na conquista de títulos, o Ministério dos Esportes estabeleceu que as negociações não mais podem ser individuais e criou regras claras para a distribuição dessas cotas de televisão, buscando equacionar o problema da falta de competitividade que estava aniquilando com o futebol.

Mesmo nos EUA, que temos como ótimos administradores do ‘negócio’ esporte, as distorções também acontecem. Observemos uma interessante diferença entre a liga de beisebol (MLB) e a do futebol americano (NFL).

Na liga de futebol (NFL), o mais rico esporte do mundo, as cotas de televisão são divididas de forma equânime entre todos os times, ou seja, são negociadas coletivamente. Isso faz com que mesmo times pequenos, de cidades pequenas, sempre estejam disputando em pé de igualdade com times de grandes centros e ganhando títulos. Porém, o mesmo não acontece com a liga de beisebol (MLB), onde as negociações são individuais, ou seja, na base do ‘cada um por si’, e que a cada ano vemos os mesmos chegarem às fases finais (Yankees, Cardinals, Red Sox…).

Dito isso, exemplos postos, podemos afirmar sem medo de errar que a divisão (racha) dos clubes brasileiros, criando a possibilidade de que cada um negocie individualmente as suas cotas de televisão, levará o futebol no Brasil a se transformar em algo muito próximo ao que acontece na Espanha, onde dois ou três clubes, ao monopolizarem a maior parte dos recursos do dinheiro das cotas de televisão, monopolizam também o ‘direito’ de vencer as competições.

Flamengo e Corinthians, através de seus dirigentes, tem todo o direito de buscar aquilo que consideram justo e mais lucrativo para os seus clubes. Porém, ambos devem saber que não tem o direito de jogar a história de seus clubes na lata do lixo, e justamente por serem os mais populares do Brasil, desprezar aquilo em que se fiam – os seus torcedores, as suas chamadas nações – para golpear o amor e a fidelidade a esses dois clubes, que são em última medida, baseadas na rivalidade que se alimenta da competição.

Que saibam Andrés Sanches e Patrícia Amorim que ambos estão dando um tiro de morte no já combalido futebol brasileiro. Saibam que estão dando um tiro de morte em seus próprios clubes, pois eles somente são grande devido à rivalidade. Saibam que estão dando um tiro de morte em seus próprios torcedores, pois sem competição e sem rivalidade chegará o dia em que não basta construir o campo, chegará o dia que mesmo sendo chamados eles não virão.

Em tempo: Além do exposto há também a preferência dos torcedores, que nunca são consultados. Em meu caso, e acho que falo por muitos também, torço muito para que a(s) emissora(s) que ganhe(m) os direitos de transmissão pensem nos torcedores e não nos submeta a horários ‘pornográficos’ devido a grades de programação jurássicas, espero que não fiquemos a mercê do fim de aberrações (novelas e BBB´s) esperando o início do jogo, pois no dia seguinte temos que trabalhar para ganharmos o dinheiro para o próximo ingresso.

Fonte: Manufaturando Consentimento e Major League Baseball

Dai aos ricos o futebol

13/12/2010

Vi esse texto no Bola & Arte, o qual reproduzo aqui.

“Aos Ricos o Futebol”

Por Marcos Alvito, antropólogo, professor da Universidade Federal Fluminense – UFF e criador da ANT.

Os sinais estão por toda parte. Em 2005 o Maracanã fechou a geral, talvez o setor popular mais famoso do mundo, onde durante meio século floresceu uma cultura torcedora lúdica e carnavalesca. Em seu lugar foram colocadas cadeiras de plástico com preço seis vezes maior. O Maracanã, antes “o maior de todos”, vai virar um estádio para 76 mil pessoas. Esse encolhimento – que ocorrerá também nas dimensões do gramado – custará aos cidadãos “apenas” R$ 1,2 bilhão. Com a reabertura do estádio, calcula-se que os ingressos custarão pelo menos o dobro do que custam atualmente.

Recentemente realizou-se no Rio a Soccerex, feira internacional centrada no futebol-negócio. Nela, “especialistas” afirmaram que doravante o futebol brasileiro terá a classe A como clientela alvo, deixando de lado as classes B e C. Porque as D e E há muito não sentam em uma arquibancada. É claro que o evento foi financiado com dinheiro público. Em Santa Catarina, o Avaí aumentou em 50% o preço dos ingressos neste ano, passando de R$ 40 para R$ 60. No Paraná, o recém-promovido Coritiba já anunciou que aqueles que não aderirem a seu plano de sócio torcedor terão que desembolsar R$ 100 pelo ingresso avulso. Não é de se admirar que a média de público do campeonato brasileiro em 2010 tenha sido ridiculamente baixa: 14.839 pagantes. Isso é menos que a média do campeonato alemão da segunda divisão!

Não é o preço do ingresso o único fator para o afastamento do público. Hoje os estádios viraram estúdios para um show televisivo chamado futebol. No estádio-estúdio do Engenhão, que custou aos cofres públicos três vezes mais do que previa o orçamento, placas de publicidade impedem a visão de boa parte da linha de fundo, inclusive da linha do gol. Ingressos para esse setor “pagando pra não ver” custam, em jogo normal, R$ 30. A tabela do campeonato é alterada de uma semana para outra, modificando dias e horários sem respeito pelo torcedor. A rede de TV que monopoliza as transmissões há décadas transformou o futebol em sobremesa da novela, com jogos no meio da semana terminando por volta de meia-noite. Essa mesma rede é dona do pay-per-view, que a cada dia dá mais lucro. Ou seja: ela praticamente obriga os torcedores a se transformarem em telespectadores dos canais pagos.

Esse processo de expulsão dos torcedores mais pobres (ou menos ricos) é algo planejado e consciente. Ainda em 2004, o então presidente do Atlético Paranaense já afirmava que “o clube não precisa mais de torcedores, e sim de apreciadores do espetáculo”. Dentro dessa filosofia, proibiu a entrada de torcedores com bandeiras, tambores, faixas e camisas de torcidas organizadas. Por baixo de uma “nuvem midiática” vendendo a ideia de que estaria ocorrendo uma modernização do futebol brasileiro, o dinheiro do cidadão pobre financia, via impostos, sua própria expulsão. É um processo de Robin Hood ao contrário…

Chamar o futebol brasileiro contemporâneo de moderno, aliás, é piada de mau gosto. Por um lado temos uma estrutura política feudal mantida há décadas nos clubes, nas federações estaduais e na CBF. Por outro, o capitalismo selvagem na hora de extorquir os torcedores. A junção do atraso com a falsa modernidade é desastrosa.

Existe algo mais arcaico e tradicional que a venda de ingressos? Como vão sempre parar na mão dos cambistas? Será que as rendas reais são mesmo aquelas? Será que as gratuidades são mesmo aquelas? É um sistema obscuro que beneficia sempre os mesmos: empresas que fabricam os ingressos (e fazem adiantamentos aos clubes, presos a elas do mesmo modo que à televisão) e, mais uma vez, cartolas corruptos.

Por falar em polícia, qual é o principal instrumento de policiamento dos estádios? Investigação? Inteligência? Aparelhos sofisticados de filmagem? Acertou quem respondeu o cassetete, usado desde o Paleolítico. Em vez de prender e processar a minoria ínfima de torcedores que vai ao jogo para brigar, a polícia prefere bater. Desde quando o bom e velho porrete é sinônimo de modernidade?

A parte menos moderna, todavia, é o sistema de formação de jogadores. Milhões de jovens brasileiros sonham ser jogador de futebol. Poucos vão se tornar profissionais e, entre estes, pouquíssimos vão ganhar os altos salários que povoam o imaginário das classes populares. A formação de um jogador profissional demora em torno de 5 mil horas de treinamento em dez anos. Os clubes exploram essa mão de obra infantil sem nenhuma responsabilidade. Se o garoto de 11 ou 12 anos se machucar ou se não “servir” mais, o que ocorre? É simplesmente abandonado. Para onde vai? O Estado zela por ele? Regulação por parte do Estado, proteção aos jovens, preparação para a vida futura com ensino profissionalizante, nada disso ocorre.

Debaixo da bruma marqueteira que exalta a pseudomodernização assistimos a um processo de elitização perversa do futebol brasileiro. Perversa porque financiada com dinheiro do povo. Uma arte e cultura popular criada e mantida por gerações de brasileiros é saqueada em benefício de poucos. É o primeiro mandamento do futebol-mercadoria: dai aos ricos o futebol.

Adeus Palestra

25/05/2010

Como nas grandes despedidas estavam todos presentes. Estavam lá os amigos, os inimigos, os conhecidos, os desconhecidos. Como em todas as despedidas nada faltou. Se fizeram presentes a alegria, a tristeza; as lágrimas.

Estavam por lá os amigos de anos e os de meses; os das arquibancadas e os de freqüentar a mesma mesa do botequim. Estavam todos lá. Aqueles que no apito final se entreolham, sorriem ou lançam um olhar de desconfiança e se vão; ou aqueles que ficam para uma “saideira”, onde as mágoas e incertezas são expostas.

Estava lá o adversário. Não qualquer adversário, mas como que por um arranjo do destino o de sábado é daqueles que nos faz relembrar jornadas memoráveis, e outras nem tanto.

Estávamos todos lá, como sempre estivemos. Estávamos lá como que incorporados àquele concreto frio, mas que ao final de cada uma das jornadas memoráveis arde – como que em chamas – devido à presença de todos estes que sempre lá estiveram.

Estavam lá as onze camisas verdes. Para os que lá sempre estiveram – como sábado –  pouco importa quem as enverga, o que importa é que essa camisa quase que joga por si só. Estávamos lá para cumprir nossa missão, essa que nos foi designada sei lá por quem, mas que assumimos como se fosse uma ordem superior, algo quase que sobrenatural.

Estavam lá também aqueles que não deveriam estar. Os que nos envergonham, os que nos apequenam, os que não compreendem a grandeza dessa missão que é manter a tradição que nos foi legada por nossos antepassados.

Enfim, lá estivemos eu, você e o Palmeiras para nos despedirmos de nossa casa. Aquela que irão derrubar em nome de um futuro incerto, de uma modernização que não nos deseja.

Tenho certeza que cada marretada, cada pedaço de concreto que for derrubado, doerá na alma de cada Palestrino; já doeu no sábado. Por isso, vi tantos olhos marejados; por isso as lágrimas me escaparam. Serão dois anos longe de nossa casa que, quando voltar não será a mesma, e talvez não seja tão mais nossa assim.

O futebol e sua história morreram um pouco no sábado.

O monopólio em perigo?

15/04/2010

Via: Escrevinhador, por Rodrigo Vianna.

O futebol e os bastidores de uma batalha de R$ 3 bi.

Nos cadernos de Esporte dos jornais, e nos sites e blogs especializados em futebol, duas notícias ganharam destaque essa semana:

– a possibilidade de a FIFA vetar o estádio do Morumbi como sede para a Copa de 2014 (foi um “furo” do “Estadão”, depois desmentido – em parte – por outros jornais);

– a (re) eleição de Fabio Koff para dirigir o Clube dos 13 (que reúne os maiores clubes de futebol do Brasil).

Quem não acompanha futebol de perto, a essa altura, já deve ter aberto um sonolento bocejo: “ah, isso é papo pra mesa redonda, domingo à noite”.

Engano. As duas notícias estão ligadas, e são a face aparente de uma batalha – milionária e silenciosa – travada nos bastidores do esporte mais popular do Brasil.

Acompanhar essa batalha é tão importante quanto  – por exemplo – saber detalhes sobre a fusão do Pão de Açúcar  com as Casas Bahia. Ou discutir se o governo vai dar (mais) dinheiro para gigantes da telefonia.

Vamos por partes.

O Clube dos 13 é quem negocia os direitos de transmissão dos jogos na TV. Atualmente, a Globo é a dona do futebol no Brasil. Pagou, aproximadamente, R$ 1,5 bilhão de reais por 3 anos de exclusividade na transmissão (e repassou à Band parte dos direitos).

Vários clubes acham que o valor é baixo. Mas outros tantos clubes estão de joelhos: endividados, vivem dos adiantamentos (pelos direitos de transmissão) que a Globo oferece.

Quem conhece de perto esse mercado, concorda: a Globo paga pouco para ser a dona do futebol no Brasil.

Um grupo de dirigentes resolveu peitar a Globo e sua aliada CBF. O confronto não é aberto. É uma guerra de bastidores. Esse grupo (liderado, entre outros, pela diretoria do São Paulo F. C.) decidiu apoiar Fabio Koff para mais um mandato na presidência do Clube dos 13.

Essa turma calcula que, no próximo triênio (2012/2013/2014), o “pacote do futebol” deveria ser vendida pelo dobro: 3 bilhões de reais!

A Globo e a CBF não gostaram disso. Pra enfrentar Koff, lançaram o ex-presidente do Flamengo Kleber Leite – para enfrentar Koff.

Nessa história, claro, ninguém é bonzinho, e nem é possível ser muito esquemático – mas as forças estão assim divididas: Globo/CBF/Kleber Leite x Fabio Koff/principais lideranças do Clube dos 13.

A Globo e a a CBF perderam.

Acredita-se que isso abre a chance de negociações mais amplas para transmissão do futebol. A Globo pode perder o monopólio. Há pelo menos uma chance. A Record já lançou um comunicado sobre o fato, confiram aqui – http://esportes.r7.com/futebol/noticias/vamos-entrar-na-briga-pelo-futebol-diz-record-20100413.html.

E o que isso tudo tem a ver com a notícia de que o Morumbi não vai mais ser a sede paulista da Copa?

Conversei com 3 jornalistas que acompanham muito de perto os bastidores do esporte, e os 3 me garantiram que a fonte da tal matéria do “Estadão” seria o poderoso dueto carioca que saiu derrotado na eleição do Clube dos 13. Seria uma vingança contra o São Paulo F.C. – que fez campanha aberta por Koff, e é um dos clubes que comandam o movimento pela majoração do “pacote futebol”.

Quem diz isso é ese blogueiro que – vocês sabem – não tem smpatia nenhuma pelo time do Morumbi. Mas esses são os fatos. Ou, ao menos, as versões que circulam nos bastidores do futebol.

Será que a CBF pode mesmo fazer campanha contra o Morumbi junto à FIFA? Como vingança? Ou mandou só um recado ao time do Morumbi?

A FIFA, oficialmente, nega que tenha vetado o estádio sãopaulino como sede da Copa.

Acompanhar essa história é importante.

O cenário, hoje, é menos favorável para a Globo. Não quer dizer que a emissora carioca deixará de transmitir futebol. Seria ingenuidade pensar nisso. Mas, talvez, a emissora dos Marinho tenha que entregar uma fatia do mercado para as concorrentes.

Se o novo Clube dos 13 insistir no pacote de 3 bilhões de reais, calcula-se que a Globo sozinha não teria como bancar  o negócio.

Os clubes poderiam fatiar as transmissões, entregando algumas para a Globo, e outras para quem oferecer a melhor proposta. Isso em dias e horários diferentes ao longo da semana…

O tripé da Globo é futebol/novela/notícia. Esse tripé corre  risco de ficar manco. Se a Globo perder uma fatia do futebol, perderá força, dinheiro e poder. Seria saudável para o público, para os clubes (que teriam opções para negociar), para o mercado publicitário (que não ficaria refém de um grupo), e para a democracia (com menos poder concentrado na mão de uma única família).

Essa seria a regra, num país mais civilizado.

Mas aqui – onde os capitalistas fazem simpósios para defende a liberdade, mas adoram um acerto cartorial pelo alto – tudo pode acontecer!

E esse “tudo pode acontecer” – sim- seria perfeito numa mesa redonda domingo à noite! Um dia eu chego lá…

P.S.: a CBF tomou hoje uma decisão favorável ao São Paulo (entregou a “Taça das Bolinhas” ao clube paulista, desconhecendo o “penta” do Flamengo).

P.S. 2: como ressaltam alguns leitores nos comentários abaixo, a decisão pode ser lida, tmbém, como uma vingança contra o Flamengo, já que a presidenta do clube Patricia Amorim votou em Koff; por último, ao desconhecer o “penta” do Fla, a CBF reconhece que o título de 1987 é do Sport Recife.

Comentário do blogue, o mesmo feito no twitter: Torcendo para acontecer isso. Comemorarei como um título!

Os mentirosos

26/03/2010

Se lembram da enquete (Torcedor, o que você quer?) do amigo Barneschi lá no Forza- Palestra? Pois bem, saiu o resultado. Parece que Del Nero e Rede Globo estão em luta contra os torcedores, e mentem descaradamente na defesa do horário pornográfico e da grade que privilegia novela e BBB.

Vá lá e leia mais um texto de resistência contra essa excrescência de horário. Mais um texto em defesa do futebol e de seus torcedores.

Tá aqui: OS MENTIROSOS!

Como já disse também o amigo Tito: Chega de sessão coruja!

Torcedores X Rede Globo

24/03/2010

Dê uma passada lá no Forza-Palestra (Barneschi) e responda uma enquete sobre a preferência de horário para os jogos do meio de samana à noite. Isso servirá de base para o autor do blogue desmontar a tese da Rede Câncer e  de seu preposto (Del Nero) de que preferimos os jogos as 21h50.

Nesse link aqui, ó: Torcedor, o que você quer?

Pelé, Gerson, Nilton Santos e a crônica esportiva – Republicado

24/03/2010

Escrevi o texto abaixo há dois anos, no dia 20/03/2008. Ele foi escrito justamente no momento em que criticavam Kleber, o Gladiador, por ter desferido uma cotovelada em um zagueiro Leonar. O tema da idealização do passado, onde o futebol era outro, voltava à tona. Não sei porque hoje alguém o acessou, deve ser o google. Por isso, reli o texto e ele continua atual. Então, como diz o SeoCruz, republique-se:

As pessoas, em geral, têm por hábito exaltar e idealizar o passado. O futuro representa o desconhecido, este – por seu turno – faz o ser humano refletir sobre mudança, talvez descontinuidade. Seria, no limite, o apagar das luzes para uma criança, e para o ser humano adulto é a incerteza, talvez o limiar do fim. Por isso, nos assusta a todos.

O presente, onde o trabalho, o tempo, o espaço, a vida, o cotidiano, e muitas outras batalhas do dia-a-dia são travadas, é o contraponto ao passado. Como todas estas batalhas nos consomem, idealizamos que havia um tempo onde isso não era assim. O passado era o Éden, o presente o purgatório, o futuro – talvez – o inferno.

Meu pai, apesar da ditadura militar, analisando apenas os aspectos de crescimento do país, deixando todos os outros aspectos de lado, jura de pé junto que foi a melhor época de sua vida. O passado, por ter o presente como contraponto, é o momento onde se foi feliz e não se sabia. Não é assim o ditado?

Não é diferente – creio eu – com nenhuma pessoa. Isso inclui os jornalistas e cronistas esportivos.

Há algum tempo assisto e leio cronistas e jornalistas esportivos exaltando o futebol que era pratica em um passado (remoto ou não) para criticar com veemência aquele que é praticado nos dias atuais. Em última análise, aquele era o verdadeiro futebol, a arte, onde a técnica se sobressaia, onde o craque (do jeito que falam e escrevem só havia este tipo naquele tempo) ‘jogava e deixava jogar’, onde os ‘brucutus’, os ‘botinudos’ e os volantes cães-de-guarda não existiam. Sem falar, é claro, que também não existiam a deslealdade, o jogo sujo (antítese do tal do fair play), nem pontapés, tampouco lances de malícia entre os praticantes do ‘esporte bretão’.

Há algum tempo isso me incomoda, tanto que inicialmente minha idéia de monografia para o mestrado era centrada neste tema. Queria saber, através da análise do discurso da imprensa esportiva, que raios seria esse tal de futebol espetáculo de que tanto falam. Mudei a linha, escreverei sobre modernização do futebol e tal. Mas, continuo incomodado com isso. Por isso, resolvi escrever sobre o tema aqui no Blog, já que a propósito da tal cotovelada do Kleber o tema voltou à tona.

Dia desses li no 3VV um comentário do Marcelo Solarino sobre como se portava, ou se portou enquanto foi atleta profissional, o rei Pelé, considerado por todos o maior jogador de futebol de todos os tempos, disse o Marcelo: “…Quem não se lembra da famosa cotovelada do Pelé em Matozas contra o Uruguai na semi final da Copa de 70? Talvez nossos jornalistas de hoje exigiriam uma punição exemplar para ele, inclusive suspendo-o da final contra a Itália…”.

Eu me lembro de uma perna quebrada pelo Gerson, só não me recordo quando e de quem, e ele para se justificar dizendo que era a do adversário ou a dele.

O mesmo Marcelo se lembra de um lance Anti-Fair-Play do grande Nilton Santos, aquele em que ele, ao perceber que havia cometido uma falta dentro da área brasileira, dá um passo à frente, ludibria a arbitragem e livra o Brasil – quem sabe – de uma derrota.

Zico teve a carreira abreviada por problemas de joelho devido a botinadas, o mesmo ocorreu com Reinaldo, e há tantos outros que é até difícil nomear.

O que sei é que os três exemplos acima (Pelé, Nilton Santos e Gérson) não são exatamente de botinudos, muito pelo contrário. Estes exemplos me são suficientes para ter a absoluta certeza que no passado, como no presente, os praticantes do futebol queriam é ganhar, a todo custo, nem que para isso (para se defender e defender o seu ganha pão) fosse preciso dar umas botinadas quando necessário.

O que continuo a não entender é o porquê dos jornalistas e cronistas esportivos criticarem tanto o futebol que se é praticado atualmente já que não é verdade (pelos exemplos levantados) que – como diz o samba-enredo – ‘lá nos tempos mais remotos’ o futebol praticado por aqui era diferente

A crítica ao futebol praticado no Brasil talvez tenha como motivo o fato de seus patrões – na maioria – transmitirem (e cobrirem) jogos de futebol de outras praças (Espanha, Itália, Inglaterra etc.). Estranho, pois lá como aqui, não é diferente. Sempre existiu e sempre existirá a vontade de ganhar, o uso da força (futebol é esporte de contato e violento por natureza – não fosse assim não precisaria de regras), várias botinadas, algumas pernas quebradas…

Fora o fato de estarem defendendo também o seu ganha pão e criticando a mercadoria daqui para exaltar a de lá, a outra explicação só pode ser a idealização do outro, a idealização da grandeza do vizinho. Mas, esta é uma outra história.